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O causo de Virgilião

Virgilião deu uma de macho e quase morreu de medo no cemitério.

A Província – quando impressa – abriu espaço também para que leitores relatassem seus “causos”. A história a seguir foi contado por Maria Antonietta Franco Van Veen.

Virgilião deu uma de macho e quase morreu de medo no cemitério”

O “causo do Virgilião” aconteceu no longínquo ano de 1900, num lugarejo pequeno que se considerava importante por causa da construção da ferrovia, então começando no Brasil, tornando também importantes aqueles que trabalhavam nas obras.

Nas frias noites de junho os ferroviários se reuniam na casa de um deles, sempre na cozinha, em torno do fogão de lenha, onde sempre havia um bule de café para esquentar a goela e esquentar o papo. Quinzinho, Juca e Virgilião, três inseparáveis compadres, eram assíduos freqüentadores dos serões, competindo entre si no relato dos mais apavorantes episódios de assombrações, dados como verdadeiros e até acontecidos com eles mesmos, com exceção de Virgilião que proclamava “não acreditar nestas coisas”. Pois ele não estava acostumado a voltar tarde para a casa? A bater estradas altas horas da noite? Não tinha que passar na frente do cemitério todo o santo dia?

Foi daí que os dois amigos resolveram fazer uma brincadeira com Virgilião: “se você for mesmo o tal, amanhã, ao sair do serviço, passe no cemitério e sobre o túmulo tal (sendo o lugar pequeno todos conheciam as sepulturas) pregue uma folha de jornal, usando pregos e martelo”.

Prometeram ainda conferir tudo depois do serviço pronto. Bem, na noite seguinte, escura e chuvosa, Virgilião desceu do trem, entrou no escritório, arrumou suas coisas e pegou o embrulho contendo o jornal, os pregos e o martelo, que os amigos lhe deixaram. Levantando a gola do paletó, enterrando bem o chapéu na cabeça, foi para o cemitério andando depressa para espantar o frio e antegozando o sucesso da missão junto aos amigos. As ruas estavam desertas e silenciosas. Nenhum ruído se ouvia. Chegando no cemitério, olhou para os lados cuidadosamente, apurou os ouvidos e entrou, aproximando-se com passos lentos da sepultura indicada.

Abaixando-se, abriu o pacote, pegou o jornal entendendo-o sobre o túmulo e começou a pregar os pregos, um em cada ponta do jornal. Depois guardou o martelo e quando quis levantar-se para partir. .. quem diz?! Seus cabelos ficaram em pé. O suor brotou-lhe da testa. Começou a tremer. Estava preso na túmulo!
Seguramente estava grudado nele. Santo Deus! Persignou-se e num tremendo arranco, reunindo todo o seu esforço e coragem, conseguiu colocar-se em pé e dando um grande salto saiu correndo espavorido gritando pelos amigos.

Só então Juca e Quinzinho notaram o estado em que vinha o amigo. As roupas estavam em desalinho, as fraldas da camisa fora da calça, faltava um pedaço da aba do paletó. Ficaram os três pensativos e temerosos. Ampararam Virgilião e o levaram de volta para a estação.
Aquela hora da noite – ou já seria demasiado cedo, um pouco antes do sol nascer? – nada podiam fazer a não ser esperar. Resolveram voltar ao cemitério, mas só quando o sol já estivesse alto e houvesse gente circulando pelas ruas.

Na hora combinada lá foram os três. Chegando no túmulo viram que a folha de jornal estava realmente pregada e numa das pontas, junto com o jornal, encontraram também um bom pedaço da aba do paletó de Virgilião! Foi uma gargalhada só. Virgilião procurava disfarçar a raiva por ter perdido sua fama de valente. E acabou rindo também, pois era só o que podia fazer.

Por fim vem muito simples a explicação na pressa e no nervosismo de cumprir bem a tarefa naquela escuridão, Virgilião acabou sem perceber pregando a aba do próprio paletó junto com a folha de jornal. Ao terminar o serviço, quis partir e viu-se preso.

Como não podia deixar de ser, no mesmo dia a história correu de boca em boca, tornando-se esse “causo”.

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