100 anos e ainda “boa pra arrotá”

Gengibirra Orlando

É óbvio que ainda vale a sabedoria popular de que “gosto não se discute”. Mas, quando vejo a rapaziada bebendo Coca Cola, fico inquieto, num misto de tristeza, raiva e pena. Como é possível – penso eu – beber essa “acqua nera” e não a gengibirra? Concluo que, com toda certeza, os bebedores de Coca Cola nunca experimentaram a gengibirra. Porque quem bebe, uma única vez, um copo de gengibirra não se esquece jamais. Escrevo e dou fé.

Não saberia avaliar quantas centenas ou milhares de vezes escrevi sobre a nossa gengibirra, um patrimônio também cultural de Piracicaba. Não que sua origem seja piracicabana, pois foi bebida conhecida em muitos lugares. Mas pela sua sobrevivência e permanência entre nós, enquanto quase todos os outros produtores desapareceram. A família Orlando – com o Renato levando à frente esse tesouro piracicabano – manteve a gengibirra e aí está, agora, o centenário do mais delicioso refrigerante do mundo. E é mula sem cabeça quem não acreditar. E não se esqueçam de que os nossos antepassados já diziam da gengibirra: “É boa pra arrotá”. E permanece.

Permitam-me recordar um episódio sobre o qual escrevi há alguns bons anos.  Em Campinas, um garotinho, deficiente mental, deliciava-se apenas com gengibirra, mas com um detalhe importante: tinha que ser gengibirra de Piracicaba. Um velho e querido amigo, já falecido, o escritor J.Toledo me escreveu intrigado, querendo saber do tal e misterioso refrigerante, tão prazeroso ao garoto deficiente.

Ao saber da história,  o Renato Orlando, generosamente,  enviou uma caixa do refrigerante ao garoto. Mas  o escritor J.Toledo e seus amigos também se regalaram com a beberagem mágica “made in Piracicaba”. Escreveu-me: “A gengibirra fez sucesso total. Todos perguntam curiosos porque não se encontra a bebida por aqui também. Pensa-se seriamente em se criar até um lobby gengibírrico para espalhar a delícia que, segundo experts (e aí, é claro, não entra o jovem João Gabriel), combina perfeitamente com pinga, vodka, gim e por aí vai.”

Vá lá que eu concorde com que “gosto não se discute”. Mas existe, também, o mau gosto, queiram ou não. E tem péssimo paladar, péssimo refinamento quem não gosta de gengibirra. Pois ela é melhor do que vinho, champanha, uísque, vodca, guaraná e a grudenta Coca Cola que chegou ao Brasil apenas durante a 2ª.Guerra Mundial. Enquanto a Coca Cola chegava – em 1942 – a gloriosa gengibirra da Orlando já imperava, disputando o mercado com a dos Andrade. Era e é a jóia da coroa das tubaínas.

Esta amada terra de Piracicaba – que muitos querem devastar – prova, a cada dia, que não morrerá nunca. Suas raízes são mais poderosas do que qualquer modismo, mesmo sendo lucrativamente imobiliário. Empresas e instituições centenárias já se multiplicam, prova de solidez, permanência, depositárias de nossas mais belas e ricas tradições. Aí está o “Nhô Quim”, entrando no rol dos centenários. E, agora, também os Refrigerantes Orlando, da nossa inigualável gengibirra.

Quem vier a Piracicaba e não beber gengibirra repetirá aquele que foi a Roma e não viu o Papa. Temos que agradecer ao Renato Orlando e sua equipe por ter mantido viva e renovada essa pérola da história piracicabana. Bom dia.

3 comentários

  1. Joseane M. Gomes em 06/11/2013 às 10:14

    Adoro gengibirra. E a mais pura verdade: só não sabe o que é bom, que ainda não bebeu. Qdo. menina, nos reunimos num bar próximo a escola Mello Moraes, e nos deliciávamos com pão doce com mortadela e, claro, gengibirra. Qdo. conto isso aos meus amigos de Nova Odessa, eles fazem uma cara de ué?! Nunca comeram pão doce com mortadela e nem conhecem gengibirra. Coitados!

  2. Derbio Messias em 07/11/2013 às 13:36

    Lembro da época de Natal…bebendo gengibirra que era tão forte, que o gás saida pelo nariz…saudades!!!

  3. Francine Alsleben Cegantini em 08/11/2013 às 17:58

    Adorei… olha a fanpage comemorativa: https://www.facebook.com/orlando100anos

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