45 anos da queda do Comurba

Na próxima semana, no dia 6 de novembro, a tragédia do Comurba – a queda do Edifício Luiz de Queiroz, na Praça José Bonifácio – completará 45 anos. Já se passou toda uma vida. E aquelas imagens dolorosas ficaram tatuadas na retina dos olhos, em peles invisíveis da alma. Colaram-se e não mais saíram, mesmo 45 anos depois.

Naquele início de tarde de 6 de novembro de 1964, Piracicaba bocejava, ainda, do almoço. Já recompus o cenário, posso fazê-lo ainda agora. As moças, passeando pela rua Governador, algumas ousando vestir minissaias, a invenção revolucionária de Mary Quant. Surgira o monoquíni, mas as garotas do Clube de Campo não ousavam usá-lo à margem das piscinas. O golpe militar dividira a cidade, eriçando ódios paroquiais. O Cine Plaza – no andar térreo do Edifício Luiz de Queiroz, o Comurba – era orgulho de uma cidade com pretensões de ser Meca paulista do cinema. E o Comurba, mais do que sinal, parecia símbolo da prosperidade piracicabana, como que imitando o Copan paulistano. Rapazes ricos e bonitos passeavam com seus Simca-Chamboard, Vemaguets, Gordinis, Fuscas. Já se amava Roberto Carlos, a “Jovem Guarda” revelava Elis Regina. E os olhos azuis de Chico Buarque fitavam a “moça na janela, vendo a banda passar.”

O relógio da Catedral mostrou a hora da queda: 13h35 daquele dia 6 de novembro de 1964. A tragédia – como ocorrera quando da morte de John Kennedy – tornou-se, também, referência de tempo, de espaço, de lugar: “onde você estava quando caiu o Comurba?” – perguntava-se. Eu a vi de meu apartamento de recém-casado, na rua José Pinto de Almeida, esquina da Moraes Barros. No térreo, funcionava a “Folha de Piracicaba”, jornal que comecei a dirigir aos meus 21 anos. A “Folha” era a contramão, o lado contrário, o murro em ponta de faca. Queríamos reinventar o mundo, vencer o golpe militar, criar uma humanidade socialista.

De uma pequena sacada, eu podia ver as torres da Catedral, últimos andares de alguns edifícios, incluindo o Comurba. Como se me tornara hábito, sentei-me, após o almoço, para ler os jornais de São Paulo. Então, o som de um baque surdo, abafado, seguido de um silêncio estranho, morno, que, hoje, sei ter sido o silêncio do absurdo. Ergui os olhos e vi a nuvem, não se sabia se um imenso lençol de fumaça, de poeira, vendaval. Era poeira. Que, rapidamente, se espalhou, cobrindo coisas, pessoas, a cidade. Nada se viu. E, naquele instante, não se percebera ser o manto da morte. Os gritos das pessoas anunciaram-na, rompendo o silêncio assustado. E se tornaram uma só voz: “O Comurba caiu”.

Foi há 45 anos e parece nada mais haver a contar, a não ser das imagens que ficaram na pele da alma, gritos, desespero. Penso, porém, ao contrário: há, ainda, tudo a falar, a rever, a reiniciar. Pois o centro de Piracicaba – o coração, o umbigo – permanece povoado de fantasmas desde aquele 6 de novembro de 1964. Nunca mais houve alegria naquele lugar, por mais festas e comemorações tenham acontecido. O idealizado coração pulsante de Piracicaba tornou-se deserto. Não finjamos: a população deu as costas ao lugar, o medo de se transformar em estátua de sal. A alma da cidade sente algo ruim ainda vivo, não exorcizado em definitivo. Para nada serviu a Prefeitura abrir ruas, pois carros passam e vão-se embora. Pessoas não ficam.

Há o sagrado também nas cidades. Pois elas são genitoras, berços, colos. E, como as mães, precisam ser reverenciadas. A queda do Comurba foi uma profanação, algo maldito vindo não se sabe de onde, mas que ainda não se foi. Demônios esconjuram-se. Piracicaba ainda não exorcizou os fantasmas do Comurba, ainda vivos 45 anos depois. E mais fantasmas estão sendo provocados, lá pelos lados do Bongue, morada da Inhala Seca. Novos moradores do local ouvirão, sem saber vindos de onde, gritos noturnos, gemidos, rangeres de dentes. As cidades têm suas maldições que aumentam quando outras maldições são trazidas nos ombros de certas lideranças. Com o mistério não se brinca. Bom dia.

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