A bicicleta e a batina

picture (63)Quando se discute extinção de vida, a razão se me paralisa. E a inteligência do coração, também. Sinto-me em túnel sem saída, numa zona cinzenta, esse lugar dos agoniados. Mais do que não saber o que pensar, fico sem pensar. O sagrado não apenas deslumbra ou espanta , também amedronta, soterra. Se não houver sacralidade na vida, o sagrado estará onde? .

Talvez, as mais verdadeiras decisões de um homem nasçam da harmonia entre razão e coração, quando ambos – querendo as mesmas coisas – encontram a resposta. Se se conflitam, algo está errado, penso eu. Quando um quer e o outro impede, a alma se machuca. Não estaria, a sabedoria do homem, em usar a razão para acolher os anseios do coração? Pois o que, à inteligência, parece impossível, fica fácil e manso no coração.

Discutir qualquer forma de extinção de vida transporta-me a essa zona cinzenta de agonia onde a sombra de Fausto passeia. O pensamento, então, fragmenta-se, coração e razão sem harmonia. Nenhum dos dois fala. Fecham-se, como se, também eles, deslumbrados mas atemorizados diante do sagrado da vida. Não consigo pensar em temas como suicídio, pena de morte, eugenia, aborto, eutanásia, incesto.

Há fantasmagorias mergulhadas em sombras de interdição, véus que – se descerrados – revelam abismos sem retornos, inquieto-me. Fausto fala por nós –como falou a Goethe e antes dele – na agonia dessa nossa “alma fáustica ocidental”, o dogma transformado em sagrado, fantasia e loucura misturadas, a bela e a fera, o médico e o monstro, ciência e religião, razão e coração, sei lá.

Ainda agora, discute-se a legitimidade de aborto de fetos sem cérebro. Quando, há poucos anos, um juiz autorizou a morte de um feto vítima de anencefalia, a reação religiosa foi absolutamente contrária. Ora, dicionários definem anencefalia: “monstruosidade que se caracteriza pela ausência total ou parcial do encéfalo.” É doloroso, pois o coração estremece, mas a razão entende: se anencefalia é monstruosidade, o anencéfalo é monstro. Então, discute-se o sagrado da vida em relação ao monstruoso, que não é apenas o horrendo, mas o espantoso, o prodígio que, na Antigüidade, anunciava a vontade dos deuses. Portanto, horror e maravilha ao mesmo tempo.

A toga e a batina confrontam-se diante do intocável. Na zona cinzenta, na minha região de sombras, a “alma fáustica” geme, como sempre gemeram almas de todos os mundos dogmáticos, fáusticos, de verdades impostas. As vítimas iniciais são sempre as mesmas, as que ousam discutir o dogma: cientistas, filósofos, artistas, pensadores, místicos. Morrem e sofrem antes, sendo reabilitados depois. A Igreja tem emocionado o mundo em seus pedidos de perdão pelos erros históricos, de Galileu aos judeus, das fogueiras inquisitoriais à miséria da escravidão. Mas de quantos séculos ainda precisaremos para sarar de tantos sofrimentos?

O novo assusta, faz tremer mundos. Depois, a dor de um tempo serve de zombaria a outro. Quando surgiu a lâmpada, religiosos temeram por altares e igrejas: poderia, uma lâmpada, substituir a vela? Ao surgir a bicicleta, novo tormento: podem, os padres, erguer as batinas para andar no novo veículo?

Células tronco, clonagem, aborto de fetos sem cérebro, uso de camisinha – eis Galileu, ainda incomodando. O futuro zombará de nós. Mas é bom saber que – ao descobrir não ser tão feio o diabo – alguém pedirá perdão em nosso nome. Pena tantos precisarem sofrer e morrer antes de se aceitar que a Terra é redonda. Bom dia.

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