A bruxa está solta?

O jornalista Marcelo Basso, em bilhete eletrônico, demonstrou sua estupefação: “A bruxa está solta? Até quando vai isso?” Tratava-se da reação atônita que tem acometido Piracicaba diante de tantas perdas, personalidades que marcaram a nossa história e que se impuseram pelo espírito de comunidade e de progresso humanístico.

A morte de Natal Garcia, presidente da Caterpillar, podia ser esperada por amigos e familiares, que acompanharam a sua luta contra a doença mortal. No entanto, colheu a cidade com a sensação estranha e melancólica que nos acompanha nas últimas semanas, das perdas tantas, de homens e mulheres que deixaram vazios profundos.

A estupefação do jovem jornalista tem razão de ser, da mesma forma essa imagem que é misto de superstição e de sabedoria: a bruxa está solta? Está, sempre esteve. É que a percebemos apenas quando leva e carrega os conhecidos, queridos, consagrados. E essa bruxa implacável levou, sem que quase ninguém soubesse, como que o carregando no anonimato e no recolhimento que ele sempre viveu, também um dos mais queridos piracicabanos e uma das figuras humanas mais generosas que Piracicaba revelou desde as primeiras décadas do século XX: João Carmignani, o Babico.

Quem, tendo conhecido Babico, não se rendeu à sua generosidade imantadora? Babico viveu no silêncio, no recolhimento, na humildade, na austeridade, voltado à família, às suas empresas e empreendimentos notáveis e de coração aberto à filantropia. Vila Rezende, em especial, é testemunha da alma caridosa e solidária de Babico Carmignani, o professor João, que jamais perdeu a sabedoria mesmo tendo deixado o magistério, dedicando-se ao ramo difícil e espinhoso da agroindústria, da pecuária, da produção de aguardentes. Os Carmignani e a Caninha Cavalinho levaram o nome de Piracicaba a todos os rincões nacionais. E Babico, herdeiro da tenacidade de seus ancestrais, foi um dos responsáveis por essa grande construção.

Apenas para lembrar: em 1900, quando do sepultamento do Barão de Serra Negra – um dos maiores beneméritos de Piracicaba – foram os Irmãos Carmignani, Caetano e Mateo, dois dos que lhe carregaram as alças do caixão, imigrantes que reconheciam a grande força que o Barão dera aos trabalhadores estrangeiros que chegaram a Piracicaba. Os Carmignani estavam lá, em 1900. E, antes da terceira década do século, nascia Babico, o continuador e consolidador dessa obra.

Uma das delícias da vida era simples demais, mas precisava de talento: prosear. Prosear com Babico Carmignani era um deleite. Por aqui, ficávamos cada vez mais com menos homens bons. E, em algum lugar, há cada vez mais homens bons. Agora, para prosearem com Babico, o grande, bom e generoso Babico. Sim, a bruxa está solta. Mesmo assim, bom dia.

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