A busca dos homens bons

Há algo de tal forma misterioso na alma humana que – apesar de tempo e espaço, de culturas e de contextos – a intuição coletiva se transmite como que conduzida pelas nuvens. Então, quando menos se espera, movimentos sociais acontecem, ao mesmo tempo e em lugares tão distantes uns dos outros que parecem combinados. E, no entanto, surgem das entranhas da humanidade, de uma alma coletiva.

Ensina, a alma popular francesa: “chassez le naturel, il revient au galop”. Basta esperar : “expulsai a natureza, ela volta a galope”. E em todos os sentidos, não apenas das grandes forças naturais, como, também – ou especialmente – a natureza humana. Não se pode violentar o homem, é inútil aprisionar a alma das pessoas. Eles voltam, a alma e o homem verdadeiro. E, creio eu, é impossível continuar brincando de desumanizar o mundo e de dessacralizar o próprio homem. A natureza está voltando a galope, o ser humano não suporta mais as prisões ideológicas, econômicas, amorais e brutalizantes. Os furacões que sacodem o mundo talvez sejam furacões da alma coletiva, a fúria do cansaço universal.

A enquete feita sobre a Câmara de Piracicaba mostra cansaços que acompanham o que institutos de pesquisas de opinião pública revelam em dimensão nacional, sentimentos estarrecedores do povo brasileiro. Estamos sentados num barril de pólvora, uma breve chama fá-lo-á explodir. Os brasileiros não mais acreditam em suas instituições políticas e sociais. E sem instituições não há povo. Sem povo e sem instituições, não há nação. A classe política brasileira – e não há mais que falar-se em exceções, que existem mas se tornam inúteis – conseguiu destruir, ao mesmo tempo, a esperança e os sonhos dos brasileiros. Pesquisas indicam percentuais altíssimos de desconfiança em políticos e de descrédito nos partidos.

Sem instituições, resta apenas a anarquia. E já vivemos uma situação anárquica há muitos e muitos anos, ainda que finjamos ignorá-la ou tenhamos medo de fazê-lo. Por interesses econômicos e financeiros, brincou-se com tudo, com todos os valores e, até mesmo, com princípios. Se não há raízes, o que haverá de sustentar-nos? Brincamos com Deus, com a sexualidade, com a família, com o amor, com honra, com a dignidade, com a espiritualidade, com crenças – brincamos de destruir. Pois, se o lucro é o bem supremo, não interessa a origem. Na política, meios e fins misturaram-se, confundiram-se.

Nas pesquisas, o povo brasileiro quando mostra instituições em que acredita, despontando a Igreja Católica e as Forças Armadas. Por outro lado, o Islamismo avança. Não ouso fazer interpretações e análises. Mas são óbvios os ocultos pedidos de socorro: crer na Igreja Católica, como especialista em espírito; crer nas Forças Armadas, como especialistas em ordem, antônimo de anarquia; admitir raízes sólidas no Islã. Seria isso?

Os portugueses – nos tempos dos fios de bigodes e de nobrezas – socorriam-se da figura sóbria, sábia, firme do homem-bom. Eram âncoras, os homens-bons, os mais respeitáveis entre as classes dos nobres. O povo buscava-os, as nações ouviam-nos. Desde os gregos, a política é convocação de sábios, sensíveis, servidores, homens-bons na “ciência e arte de governar”. Estamos, agora, diante do caos que pode ser trágico: política e políticos tornam-se sinônimos de indecência.

Precisamos reencontrar os homens-bons. Eles existem. Precisamos deles. A natureza retornou a galope. O homem quer voltar a ser humano. E bom dia.

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