A caminhada de A Tribuna

CaminhadaHá algumas décadas, apareceu-me na redação de O DIÁRIO um garoto ainda imberbe, que eu conhecia da vizinhança de minha casa. Ele tinha apenas 14 anos. Mas, com desembaraço e impressionante convicção, pediu-me uma oportunidade para trabalhar conosco na redação, sem sequer saber qual a função. Mas insistia: “Eu quero ser jornalista.” O nome dele: Evaldo Vicente.

O Evaldo trabalhou conosco, adolescente ainda, por alguns anos. Éramos – sem receio de incorrer na imodéstia – uma equipe de então jovens jornalistas de muita competência e de ainda maior idealismo. O Evaldo entrou no time, ao lado de, entre alguns de que me lembro, Padre José Maria de Almeida, João Maffeis, Antônio Messias Galdino, Oswaldo de Andrade, Geraldo Nunes, Rubens Lemaire, José ABC, Garcia Neto, dos que, “currenti calamo”, me vêm à lembrança. Foi, para o Evaldo, apenas o início, pois ele queria mais e nada o fez mudar de ideia: queria ter seu próprio jornal. E, para isso, teve, na administração de empresa jornalística, um grande mestre, acho que dos maiores que Piracicaba já teve: Sebastião Ferraz. E fez seu aprendizado em São Carlos, também com o jornalista Paulo Silva.

Evaldo Vicente, com audácia e apenas com a própria coragem, criou o seu sonho ao criar A Tribuna Piracicabana, que completará sofridos mas gloriosos 36 anos neste próximo dia 1º de agosto, aniversário também de Piracicaba. E anuncia novos tempos, com o lançamento de sua primeira campanha de marketing, com uma ampla renovação, e preparando-se para a transição, prometida para o 40º aniversário, quando uma nova geração da família Vicente, comandada por Erich Valim Vicente, responderá por aquele jornal.

Confesso estar, ao mesmo tempo, espantado e dando graças, pois os céus me deram a oportunidade de acolher e dar oportunidades a jovens que se tornaram grandes jornalistas, empresários, políticos, profissionais competentes e, agora, de ver uma nova geração surgindo, sob o comando já perceptível desse moço talentoso, o Erich Vicente, que, em meu entender, já pode ser considerado o mais promissor dos jornalistas piracicabanos. Espanto-me, pois, de ver como passamos pelo tempo, pois ainda creio na imobilidade do Tempo, que não passa mas pelo qual passamos. Pensar que aquele garoto de 14 anos, o Evaldo, conseguiu manter o seu jornal enfrentando todas as agruras, sendo fiel a seu idealismo, permanecendo honrado, sendo digno dos princípios fundamentais que norteiam o jornalismo – pensar e ver que isso aconteceu é como presenciar uma lição de perseverança, de fé e, em especial, de fidelidade aos próprios sonhos.

A competência, a responsabilidade, a dedicação do Evaldo sempre foram de tal forma marcantes que, quando decidi publicar o romance ” Bagaços de Cana” – cuja edição, no final dos 1960, fora barrada por força da censura militar junto à editora – não hesitei em lhe dar os originais para ele, ainda jovenzinho mas estudioso, fizera a revisão. Ele e Oswaldo de Andrade me deram essa honra, que se ampliou quando Araken Martins, de posse também dos originais, se inspirou para fazer as belíssimas ilustrações que deram, ao livro, um toque mágico da arte plástica.

Que A Tribuna, nesse momento de transição e de renovação, se fortaleça não para ser um jornal grande, mas um grande jornal, já que minha convicção é de que são jornais menores, integrados à sua comunidade, os que mais merecem a confiança de seus conterrâneos. Os pequenos são independentes pela força do idealismo. Os grandes acabam comprometendo-se com forças outras que colocam o jornalismo não mais como um fim em si mesmo, mas como um meio. E há meios nem sempre confiáveis. Que A Tribuna viva essa transição, que se renove, que se fortaleça, são os votos deste veterano jornalista, agora decano dessa mesma imprensa, no abraço que dou àquele garoto que me procurou há tantas décadas passadas, o Evado, e a esse que começa a assumir o comando do mesmo ideal, o Erich. Bom dia.

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