A cidade, órfã de Dona Isa

images (1)Venho lamentando-me, nos últimos tempos, do posicionamento indiferente de parte dos meios comunicações de Piracicaba. Faço-o, com minha responsabilidade de decano – ainda em atividade – dessa imprensa. Devo – porém e talvez – rever essa minha avaliação. Pois – pelo que, agora, começo a perceber – não se trata apenas de indiferença, de alheamento, mas, especialmente – quem sabe? – de ignorância, desconhecimento de nossa realidade, de nossa história, de nossa gente.

Meios de comunicação não podem ser confiáveis se não inseridos na história, na alma de uma comunidade. Se não o forem, serão, apenas, porta-vozes de pequenos grupos. Parece não ter havido uma transmissão da herança cultural dos que se foram – e vão indo, como eu – aos que chegaram ou que chegam. Estes fazem jornalismo asséptico, sem identidade. Da maneira como o fazem, podem exercê-lo tanto aqui quanto na Ilha de Marajó.

O silêncio sobre a morte de Isaltina Ometto Silveira Mello – a extraordinária e admirável Dona Isa – é um testemunho sombrio dessa ausência de identificação, de participação, de comunhão com nosso povo. Se – no passado – Lydia de Rezende, a Dona Lydia, foi considerada modelo e símbolo da “mulher brasileira”, Dona Isa foi sua sucessora, modelo, símbolo e referencial da mulher piracicabana. Quem a conheceu jamais haverá de esquecê-la e, compulsivamente, haverá de contar quem foi, o que fez essa mulher com alma transparente, coração latejante e força heróica. Dona Isa não foi boazinha, mas mulher em busca de justiça e de generosidade. Ela, como poucas pessoas, viveu o preceito de Santo Agostinho: “justiça caridosa, caridade justa”.

Conheci Dona Isa aos meus 12, 13 anos, na Usina Tupinambá. Meu cunhado, já falecido, Rogério Chiarinelli – casado com minha amada irmã Marlene – levou-me a uma festinha de carnaval na usina, onde e quando ele – então radialista – iria fazer uma reportagem. Ele era amigo dessa figura ímpar e nobre que foi o dr.Celso Silveira Mello, o Malasca, marido de dona Isa. Nunca me esqueci: eu, pobrezinho, naquele reino da fartura que, no entanto, exalava e trescalava simplicidade, humildade, atributos de pessoas nobres. O “Doutor Celso” foi um dos principais ideólogos do desenvolvimento da indústria sucroalcooleira no Brasil. Sua simplicidade chegava a incomodar as pessoas. E ele podia expandir sua força, sua inteligência, seu caráter, pois – ao lado – tinha a companheira valente e heróica: Dona Isa.

Quando o Doutor Celso – inesperada e prematuramente – faleceu, lá estava Dona Isa – ainda jovem, com quatro filhos: Celso, Rubens, Celisa, Mara – com o peso do mundo nos ombros. Era – a união dela e do Doutor Celso – um amor dilacerante. E, sozinha, teria que responder por tudo: pelos filhos, pela família, pelo império industrial que surgira desde a saga épica de sua avó, também heróica, Caterina Ometto. Dona Isa foi o esteio, a âncora, o porto seguro dos filhos que – bebendo de sua força e das tradições da família – forjaram a Cosan e todo o novo império.

Não é, todavia, a Dona Isa apenas empresária que marcou a nossa história e nossos tempos. Ela jamais permitiu se revelassem suas obras não de simples benemerência, mas de uma profunda compaixão e de comovente solidariedade com os pequeninos. Onde houve dor, lá estava a mão invisível de Dona Isa auxiliando. Onde houve fome – especialmente a fome dos excluídos, que a angustiava – lá, também invisível, surgia o amparo de Dona Isa. E aos enfermos, aos sofridos, à cultura, aos angustiados, aos amigos que a veneravam. Nunca se saberá quanto, em apoio material, Dona Isa despendeu com os necessitados. Mas o principal não foi o quanto ela deu e doou de seu patrimônio físico e, sim, o que ela deu de si mesma – de seu coração, de sua solidariedade humana – o que distribuiu de seu patrimônio moral.

Há alguns anos, ao entrevistá-la, propus-lhe discorresse sobre um tema: “Pedro Ometto, meu pai”. Ele foi o Rei do Açúcar. Dona Ilsa recusou-se e me advertiu: “Ele foi grande porque teve minha mãe Narcisa ao lado e como retaguarda.” E propôs contar se o título fosse mudado: “Narcisa, minha mãe!” Assim aconteceu e revelada foi a epopéia de uma família. Agora, solidarizando-me com o Celsinho, seu filho, ele me disse o que resume tudo: “Eu tive uma mãe.”

Não foi apenas ele. Nem apenas o Rubinho, a Celisa, a Mara. Piracicaba teve, em Dona Isa – a Senhora Isaltina Ometto Silveira Mello – uma grande mãe. E, agora, a cidade está órfã dela. Nossos meios de comunicação deveriam – se comungassem de nossa história – abrir manchetes, gritar pelos ares, anunciar aos quatro ventos: “Dona Isa morreu, choremos juntos”. Ou sair pelas ruas, em pranto: “Dona Isa se foi, estamos órfãos.” E fazer silêncio. E agradecer por ela ter estado nesta terra. E por que não uma vívida, grande, bela missa campal, ecumênica – na praça, em algum campo, onde caiba o povo – para rendermos graças por ela ter estado conosco?

Eu sei que – onde estiver – ela ficará brava comigo, pois jamais aceitaria ser chamada de anjo. Mas Isaltina Ometto Silveira Mello foi o anjo bom que protegeu Piracicaba nestas últimas décadas. Paro por aqui, antes que ela – decidida e enérgica – apareça para ralhar comigo. Bom dia.

4 comentários

  1. MARLENE ELIAS CHIARINELLI em 23/09/2013 às 13:27

    CECILIO RETRATOU A VERDADEIRA iSA… MULHER FORTE , INTELIGENTE QUE AMOU NOSSA CIDADE COM AMOR E GENEROSIDADE …MUITA SAUDADE DESSA GRANDE AMIGA !!!!!!!!!

  2. Lucia A. Coutinho Walker em 23/09/2013 às 21:49

    Tenho muito orgulho de ser neta dela! Ela era assim mesmo e muito mais!

  3. José Eugenio Nardin em 24/09/2013 às 00:15

    Não tenho o dom da escrita, o que posso revelar do convivio com D. Isa, durante os ultimos 19 anos de sua vida, foram lições diarias de simplicidade, disciplina, honestidade e sabedoria. O amor a todos que estavam de alguma forma ao seu lado, com o sorriso aberto, com um carinho invejável e sempre espontaneo.
    D. Isa sei que está do outro lado do caminho…., vamos sorrir, rezar e pensar muito em tudo que nos deixou, estará sempre viva em nossos corações…. neninho

  4. Katalin Almasy Zanello em 24/09/2013 às 13:19

    Obrigada, Cecilio, por ter assumido esta responsabilidade, pois a Dona Isa, que conheci pouco mas admirava muito, merece ser lembrada.

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