À espera da coruja de Minerva

Ora, tenho consciência de não ser, eu, o mais habilitado para comentar a respeito de jornalismo, em especial o dos meios eletrônicos de comunicação. Pois, estou entre a minoria que, com 55 anos de atividades, tem o privilégio de considerar o antes e o agora, as mudanças, as transições. E isso significa pertencer a uma escola jornalística antiga e diferente, acho que dinossáurica. Era quando, mais do que profissão, jornalismo exigia compromissos missionários, idealísticos, como que um sacerdócio. Jornalistas, poetas,escritores, músicos e loucos estavam “à gauche”, membros de uma mesma tribo. Mais do que a notícia, buscavam-se ideias. Havia causas. As redações eram escolas de cultura, pontos de encontro da intelectualidade, locais de reuniões, de debates e até mesmo de conspirações. Jovens com aspirações artísticas e culturais ansiavam por ter acesso a uma redação de jornal, na certeza de, sendo recebido, haver de beber da sabedoria e do conhecimento dos mais experientes e cultos. Jornais eram universidades da vida. E, neles, aprendia-se a ser “sereno como as pombas, esperto como as serpentes.” Palavras-chave indicavam rumos: honradez, compromisso, verdade, interesse coletivo.

Havia malandros e muitos. Eram, no entanto, estigmatizados como hereges de uma profissão de fé. Jornalismo sem causa não existe. Logo, o fundamental está em saber-se qual a causa movedora do produto que chega ao público. Pois há causas boas e más, dignas e indignas, idealísticas e materialistas, ideológicas e apenas mercantis. Saber disso é a condição essencial para se aquilatar a informação. Um cidadão mal informado é mais vítima de manipulações do que o desinformado.

A compreensão seria maior se se estabelecesse uma separação clara, nítida, entre meios impressos e eletrônicos, entre jornalismo e entretenimento. A imprensa propriamente dita está, hoje, diante de uma encruzilhada desafiadora, pressionada pelo advento extraordinário da era digital. No entanto, a sua função e a sua responsabilidade me parecem ainda maiores, pois a essa imprensa está reservada a missão de agir e atuar como filtradora das ondas da poluição informativa. Pois há, hoje, tal e superficial pressão de informações, de notícias, de novidades, de apelos publicitários que, sob o público, se exerce verdadeira lavagem cerebral. As técnicas psicológicas, adotadas pela publicidade, são cada vez mais sofisticadas e, por isso mesmo, mais eficientes e, portanto, perigosas.

O milagre da internet está, ainda, envolto em névoas, permitindo confundir-se trigo e joio. Programas de tevê, muitos deles, perderam o senso de equilíbrio, como se desprovidos da mínima noção de ética e de civilidade. Palavrões, grosserias, perversões, exploração do pior e negação do melhor – há uma verdadeira intoxicação de vulgaridades como se se disputasse o troféu da sordidez. São, no entanto – e sem que muitos o percebam – o principal sintoma da decadência social, caracterizada, também, por essa queda ao nível da banalidade do cotidiano. É a vulgarização dos valores.

O novo – que é o de sempre – papel da imprensa está na depuração. A notícia – mais velozmente transmitida por veículos eletrônicos – deixa de ser novidade. No entanto, o mais importante não é a notícia em si, mas a análise de suas conseqüências, o comentário, a reflexão. A reportagem investigativa, o editorial, opiniões, participação do leitor, o debate, o confronto de idéias, a pluralidade de pensamentos – parece cada vez mais claro o papel do jornalismo impreso.

Aliás, o que é mesmo notícia, hoje? Notícia tem o sabor do novo, do inusitado, do incomum. Dava-se, aos iniciantes, o exemplo do homem e do cão: se este morde o homem, não é notícia; se o homem morde o cão, notícia é. A banalização da informação, a exploração da violência, do sexo, da pornografia, dos escândalos tornaram-nos comuns, como que parte do cotidiano. Não mais são notícia. Saturaram, levando ao descrédito ou à simples indiferença. Notícia, hoje, deveriam ser jovens idealistas, trabalhadores, sonhadores; é alguém ajudando a mulher idosa atravessar a rua; é a delicadeza no trato de uns em relação aos outros. O mal deixa de ser notícia, tão generalizado se tornou. O bem, o honrado, o digno, o decente, o generoso – estes são notícia, como uma boa nova que se anuncia.

Por isso, nessas trevas e obscuridão, surgem sinais de estar de volta a coruja de Minerva, símbolo da sabedoria. Ela levanta voo quando o sombrio da noite se aproxima. Já estamos nele. Fica, porém, a dúvida de sempre: estaria, a coruja, chegando tarde demais?

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