À espera do ano sabático

picture (55)Em outro jornal, contei ter-me dado ao direito de viver meu ano sabático. Já o estou planejando. Comecei a guardar algum dinheirinho. As coisas que me esperam são aventuras fascinantes, sonhos alimentados em noites de insônia, em dias de cansaço ou de perplexidade. Meus filhos não dependem materialmente de mim, os netos crescem, amigos, quase todos lá se foram. Esculhambaram com Piracicaba, meu velho mundo acabou. Cadê o banco de jardim onde beijei a namoradinha? E a árvore, ao pé da qual fiz xixi numa noite de lua cheia, antes de dedilhar o violão sob a janela da bem-amada? Cadê?

Nostalgia dói. E nostalgia significa saudade de um lugar, a ausência dele. Como conviver com bárbaros que xingam, que agridem no trânsito, na fila do supermercado, que pisam em pessoas? Meu mundo era de muros baixos, por sobre os quais minha mãe e a vizinha trocavam xícaras de pó de café, de arroz, poucochinhos de sal e de açúcar. Agora, o lugar de minha morada tem um jardim e um quintal sem muros. Mas janelas com grades.

Já planejei o meu ano sabático. Olhei em minhas estantes e sei os livros que levarei para ler e reler, minha coleção da “Cena Muda”, revistas da Civilização Brasileira. Não levarei Sartre. Nem Simone de Beauvoir, nem Kafka, nem Nietszche. Levarei Adélia Prado, Neruda, Cecília Meirelles, Fernando Pessoa e, na algibeira, o mais belo livro que já li na minha vida, que me impede o coração de endurecer: Marcoré, de Antônio Olavo Pereira. Quem não leu não sabe de ternura escrita.

Na verdade, é isso que viverei em meu ano sabático: ternura. Já me vejo: no revéillon de 2009/20010, desligarei telefones, televisão, computadores. Não receberei mais ninguém, absolutamente ninguém. Eu é que irei à procura de outros, em especial daqueles que eu amo: mulher, filhos, netos, poucos amigos. Não receberei cartas, nem jornais e revistas. Viverei um ano sem lenço nem documento, sem régua e sem compasso.

Não irei em busca do tempo perdido, mas do espaço que se perdeu, que não encontro mais. A praia deserta onde, com pescadores, comi peixe na brasa da fogueira; os amigos de São Pedro, velhinhos, que me faziam leitoazinha à pururuca; o sítio do Pau Queimado, onde meus amados pretos velhos, os Soledade faziam pão em fogão de lenha, sítio de jabuticabas e mangas no pé, galinhas ciscando, o céu imenso e estrelado em noite enluarada, quando não se vê qualquer poluição de luzes artificiais.

Meu ano sabático será o de uma longa, infindável, caminhada, revendo lugares que me ficaram no coração, seja onde for. Há uma casinha, de número 10, numa antiga colônia de ferroviários em Bauru, que preciso rever. Lá estão as almas e espírito de tios e primos amados; lá está o cheiro da Maria Fumaça, lá está o tremor do namorico com Maria Palito, de lá parti para o leito de Marilu. E quero rever a colônia da Usina Ester, o caminho em direção à represa, à beira do córrego onde pesquei meu único peixe, um lambarizinho, e, assustado, devolvi-o às águas. Quero ver se Shirley guardou o poema que lhe fiz, aos meus sete anos de idade: “Luz que alumia o céu e o jardim, nunca afaste a Shirley di mim.”

Quero andar por minha cidade, rua por rua, quarteirão por quarteirão, recolhendo pedacinhos de meu coração. E, em cada final de tarde, ficar à beira do rio, bêbado do crepúsculo, comendo pão com mortadela. E, depois, dormir de janelas aberta, olhando a caminhada da Lua, sem pruridos de estar nu. E, se chover, dançar na chuva. Bom dia.

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