À espera do latim

picture (8)Antes, perder o latim significava falar inutilmente. Mas, em relação à Igreja, perder o latim deve ter significado perder algo mais. Pois, para algumas gerações a fé parecia intimamente ligada ao latim. Mesmo para os que, como eu, ainda não se incomodavam em ter ou não ter fé. Havia o latim e, naquela língua misteriosa, as coisas divinas pareciam acontecer.

Entrar numa igreja era ouvir o padre falando em latim. Deus estava em algum lugar daqueles altares. Pois, de costas para o povo, o celebrante se dirigia a uma entidade invisível, recolhida num lugar mais alto, talvez próxima do céu. Era como se acontecesse um milagre, pois o povo – formado por maioria de gente humilde – entendia tudo. O coral cantava em latim, o povo respondia em latim. E um sininho parecia comandar coisas e pessoas, como um código que, entendido pelos fiéis, levava-os a se ajoelharem e a se levantarem e a se persignarem. Um cheiro agridoce de incenso se espalhava pelas igrejas penumbrosas, vitrais coando cores para criar espaço de recolhimento e de pausa diante do mundo. Aquilo tudo era tão misterioso, uma linguagem e um ritual com tantos simbolismos que se tornava impossível deixar de sentir a presença do divino. Pois fé é sentir. Saber é outra coisa. E, nas coisas de Deus, saber é apequenar o próprio Deus. A missa em português foi inventada para o povo entender. Quando se entende, prescinde-se da fé. O nome disso é compreensão. E fé é acreditar sem entender.

Ora nunca entendi o cantochão dos beneditinos, ao entardecer, na Igreja de São Bento em São Paulo. Mas o misterioso canto gregoriano enchia as almas de paz. E, por mais racional eu fosse, as missas em latim me emocionavam por sentir que as pessoas, num linguajar estranho, realizavam a comunhão dos santos. Mistério é o obscuro que não pode ser explicado, muito menos com palavras. Falando em latim, as pessoas pareciam adotar a linguagem do próprio Deus. E, então, o padre tornava-se, sim, um homem de Deus. Nas missas em português, sacerdotes desvendaram o mistério e como que perderam, eles próprios, a intimidade com o divino. O povo não sabia a tradução de um “dominus vobiscum”. Mas intuía fossem palavras mágicas trazendo Deus para junto das pessoas.

“Perder o latim” significa mais do que perder tempo. Pode significar perder um tesouro cuja riqueza se desconhecia. Nas igrejas, a língua doméstica do cotidiano, a miséria do dia-a-dia repetida diante do altar parecem repetições da televisão. Essa linguagem do cotidiano – sem sequer um simples “introibo ad altare Dei”, sem códigos que insinuem o infinito – mata a transcendência. E, sem transcendência, a fé se apequena na razão.

Digo, porém, apenas, de uma saudade minha. De uma fé infantil, ingênua diante daquilo que era entendido pelo coração. Quando passou a dizer-me à razão, o transcendental passou a ser parte do cotidiano político e econômico. Mas para que procurar igrejas, um templos, por dúvidas sociais? Na selva urbana, o homem está em busca de aconchego, de isolar-se, de recolher-se, de viver alguns momentos de sua Tebaida. A fé das pessoas claudica. A minha deve ter-se ido embora com o latim. Podia ser pequena. Mas era a que eu tinha.

Agora, o latim começa a retornar a algumas missas. Talvez, num desses entardeceres, a fé me espie através de um cantochão gregoriano, um “miserere mei” lamurioso num “sanctum santorum”, um “sursum corda” em meu peito cansado E, ao fim, talvez uma voz generosa me deseje um “vade in pace”. Bom dia.

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