A hora do mau cabrito

picture (51)Há heranças que, mesmo sendo atávicas, não se transmitem. Nas montanhas do Oriente e talvez à sombra dos cedros, meus ancestrais pastoreavam cabras. E, em Piracicaba, meu pai foi pastor de cabras e cabritos, nos descampados de sua infância e adolescência. Eram outros os tempos. E outra, a cidade. Nas ruas e nos quintais, galinhas ciscavam a terra, cavalos descansavam nos pastos, cabras passeavam. Também os cabritos. Mas, para mim, não me foi transmitida essa herança.

Tenho saudade de ouvir minha mãe contando como se apaixonara por um pastorzinhos de cabras, o árabe de olhos azuis. Com alegria maliciosa, ela dizia de venturas e desventuras naquele pastoreio, de aventuras de jovens namoradinhos por entre cabras e cabritos. Parecia haver um recados cifrados, códigos eróticos naquelas narrativas em que ela, rindo, dizia serem, as cabras, mais caprichosas. Meu pai, também rindo, tentava explicar que, por serem caprichosas, é que elas se chamam cabras. “A origem da palavra é ´capris`, que significa capricho.” Era um sábio. E romântico.

Se meus pais me ensinaram os caprichos das cabras, explicaram-me o amargo destino do cabrito: o sacrifício. A cabra, entre os primitivos, era reverenciada, adorada e dela bebe-se, ainda hoje, o leite. O cabrito, por sua vez, é imemorialmente sacrificado e sua carne é para ser comida. Ainda agora, quase como na antiguidade, bodes e cabritos são sacrificados em altares e terreiros, em rituais de orgia e de sangue. Diz-se que, antes de ser degolado, o cabrito verte lágrimas. Mas não berra.

É uma triste lição essa, a de que o bom cabrito não berra. Mas não a aceito e dela nada aproveito. Pois eu berro, ainda berro. Por isso, nunca fui, não sou e não conseguirei ser bom cabrito, já me cansei de escrever sobre isso. À ameaça de degolas e de violentações, posso até derramar lágrimas algumas vezes, em outras não. Mas berro, berro sempre. Já fui para a prisão berrando. Envelheço e ainda berro. E se o povo, se homens e mulheres, se jovens e velhos não berrarem diante das artimanhas que se armam nos bastidores do poder, esta cidade irá submeter multidões às injustiças, à degola de humilhações. Há quem queira tornar-nos cabras, bodes e cabritos vitimados aos apetites de empreiteiros, negociantes da educação e da saúde. Nos churrascos onde se conluiam o poder público e a sanha terceirizante, há pedaços da carne de cabritos silenciosos. E copos de leite de cabras com úberes fartos.

A tirania das décadas de ditadura criou medos e humilhações que ainda deixam cicatrizes. Muitos do povo temem acreditar vivamos num estado de direito, com liberdade para cobrar, reagir, exigir e, acima de tudo, reagir aos tiranetes de plantão, que dão os últimos suspiros em fortalezas municipais. A impunidade deu-lhes sobrevida. O silêncio dos bons cabritos, os que não berram, lhes permite acreditar em redomas de cristal. Pedro Aleixo tinha razão “Nas ditaduras, o perigo está no guarda da esquina”. Em cada repartição, em cada chefia parece haver um guarda-da-esquina agindo arbitrariamente.

A mediocridade precisa de bons cabritos, os que não berram. Pois é no silencio que os medíocres imperam. Cidades com bons cabritos acabam destruindo-se de sua própria covardia. A indignação exige berros e abomina silêncios. Expressa-se através de maus cabritos. Bom dia.

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