À margem da estrada

Escolhi ficar à margem da estrada. Primeiro, porque já conheço o caminho e, não gostando, resolvi voltar. Depois, porque, estando à margem, dá para ver e enxergar melhor. Consigo ver multidões indo, aceleradas, atropelando-se. E começo a ver pessoas retornando, certamente decepcionadas, cansadas, descobrindo não haver potes de ouro além do arco íris.

Uma das mais belas páginas da literatura em língua portuguesa é a de Euclydes da Cunha, narrando o estouro da boiada, em “Os Sertões”. Apenas um trechinho: “Vibra uma trepidação no solo, e a boiada estoura… A boiada arranca.” Um passarinho mais atrevido fez um ruído, assustou uma rês, que assustou a vaca ao lado, que assustou o boi – e toda a boiada alvorotou-se, centenas de animais parecendo um só corpo assustado.

Sinto que Euclydes – se estivesse à margem de nossa estrada cotidiana – iria repetir o mesmo texto, apenas trocando de personagens: em lugar de animais, pessoas. Para onde vão, por que tanto ziguezagueiam, qual a razão de tal descontrole, desse correr e agitar-se sem rumo? Fui apenas duas ou três vezes a restaurante “por quilo”. Assustei-me. Não se come, engole-se; não se alimenta, deglute-se. Pessoas não se olham umas para as outras, a não ser as que se conhecem. Aliás, estas mal se olham nos olhos. A arte da conversa está desfalecendo. Até nos restaurantes e bares que eram, antigamente, espaços de convivência, de conversação, de arte, onde músicos compunham suas músicas em rabiscos em pautas brancas. E escritores escreviam até em velhas folhas de papel de embrulho.

À margem da estrada, continuo com minhas imensas dúvidas e minhas pequeninas certezas, apenas duas ou três. Vejo-me na manada, atropelando e sendo atropelado, embora fosse mais pacífico o estouro humano de algumas décadas passadas. Mas não consigo entender esse salve-se-quem-puder, a falta de objetivos que não os exclusivamente materiais. “O que eu vou ganhar com isso? – é a pergunta generalizada. Um sorriso generoso não tem preço. Um olhar amoroso vale mais do que um tesouro.

Vendo a manada passar, lembro-me de que, muitos anos passados, escrevi a respeito da natureza humana que se pode revelar, integralmente, se os homens se sentassem numa sarjeta qualquer e falassem de suas dores, angústias, decepções, expectativas. Seria uma choradeira geral. E veríamos como somos tão semelhantes, até mesmo na desumanidade. Mas essa conversa só pode ser possível com as pessoas que, tendo chegado ao final da estrada, começarem a voltar. Durante o estouro da boiada – também a humana – a poeira intensa nada deixa ver. Pena que, quando o pó baixar, possa ser tarde. Bom dia.

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