A máscara de Arlequim

O bom e o complicado de exercer o jornalismo nas cidades interioranas está, penso eu, na resposta imediata, na cobrança, vaias e aplausos. É como uma conversa informal, diálogo ou discussão entre amigos e inimigos, troca de confidências, briga em família. A imagem mais apropriada, parece-me, é de almoços familiares: todos reunidos, amando-se e odiando-se, cunhados que não se falam, sogra e nora que apenas se suportam, genro e sogro fingindo, marido e mulher sorrindo para não se matar. Entre mortos e feridos, todos sobrevivem.

Jornalista, farmacêutico e barbeiro cuidavam como que de templos onde as pessoas iam saber das coisas. A verdade, nem sempre, estava no que saíra escrito “em letra de forma”. Era falada. E os cochichos estavam na redação do jornal, na botica, na barbearia. Era mais botica do que “pharmacia”, pois botica era tudo: armazém, venda de remédios, de retalhos. Fosse de português, o luso dizia ser “botica de cheché”. Acabou em boteco.

Algo disso ainda sobrevive, de outras maneiras e mais timidamente. O jornal eletrônico não é mais de um dono só, mas da comunidade, como se fosse instituição na qual todos participam. Como a botica, como a barbearia. Isso é possível nas cidades médias, onde está a “grande família”, confusa, amando-se e odiando-se como milenarmente acontece em todas elas. Paris era assim, quando Proust escreveu a história do tempo que lhe pareceu perdido. Naquela Paris e em nossas cidades, a história do “santo da casa” é notável. Ele não faz milagres. Menos por ser da casa, mais por todos saberem que ele não é santo.

Sendo da casa e não sendo santo, tenho sido cobrado, ultimamente, pelo que dizem ser um humor triste nas escrevinhações. Talvez, o humor dos palhaços, dos risos tristes. Ou resquício do cinismo grego, que escarnecia da vida social mais por convicção filosófica, menos por desesperança. Os nossos são tempos desesperados. Ri-se não só para revelar verdades pessoais. Nem, tampouco – como na máscara de Arlequim – pelo “castigat ridendo mores”, para castigar costumes, na inscrição da “Comédie Italienne”, de Paris. Ri-se por impotência, por perplexidade; ri-se por nada mais ser possível fazer; ri-se para não chorar.

De esperança, não escrevo. Que seja, ela, instrumento da contradição dos pragmáticos: agem racionalmente, mas estimulam as emoções do povo. Eles “não deixam para amanhã o que pode ou deve ser feito hoje”. E semeiam esperanças ao povo: que este espere pelo amanhã. Pois, se o povo deixar de crer e de esperar, haverá de transformar-se em turba. E não sobrará pedra sobre pedra.

Algumas expressões definem muito da sabedoria prática da vida. “Nada há de novo sob o Sol.”, uma delas. E uma outra, mais amarga, esquecida: “Muda o monte, não mudam as moscas.” Os jovens não sabem disso e é bom que não saibam. Pois é vital acreditarem começar, o mundo, com eles. Isso é falso, mas faz girar a roda da vida. Se moços soubessem o que velhos aprenderam, ninguém sairia das cavernas. Fora de catacumbas – primitivas e atuais – nunca se soube de cristãos vivendo como irmãos.

Distante da juventude, eu seria tolo se retomasse canhões e espadas e armaduras do passado. Com exceção de políticos e do Poder, tudo e todos mudam. Por isso, mais do que ao “ridendo”, agarro-me à lição do mais doce de meus mestres, D.Aníger Melilo: “Pegam-se mais moscas com uma gota de mel do que com um barril de vinagre.” Ele estava certo. Favos de mel, cadê? Procuro. Bom dia.

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