A melancólica farra gay

Farra GayNeste 2010, comemoro, também, 45 anos de literatura. Em 1965, no meu sonho de ser escritor, uma corajosa editora, a Literart – dirigida por J.Cavalheiro, irmão do célebre Edgar Cavalheiro, crítico de arte – assumiu a responsabilidade de publicar o meu primeiro romance, “Um Eunuco para Ester”. E ao enfatizar a coragem da editora, quero lembrar o eventual leitor de hoje que já estávamos, então, em plena ditadura militar e assistindo ao início de um movimento impiedoso de falsos moralismos. Aquele romance tratava, abertamente, da questão da homossexualidade, sofrimento para pessoas que estavam como que proibidas de exercer a sua própria sexualidade ou simples afetividade.

O livro – que, hoje, passaria por quase açucarado – causou escândalo. Minha alegria, no entanto, foi a do reconhecimento de eu ter tratado o tema com respeito, civilidade e compreensão. Pois, na verdade, tratou-se de uma narrativa em que o personagem central e principal era um querido, queridíssimo amigo de infância e adolescência, garoto que fazia parte de nossa turma e que ousara viver a sua própria história. As pessoas sabiam que eu tentava contar os conflitos pessoai de Francarlos Reis. O seu sofrimento, a sua luta, as angústias, a resistência a pressões e às suas próprias dúvidas, tentei narrá-los com delicadeza literária. E Francarlos Reis, mesmo quando se transformou num dos mais celebrados atores teatrais do Brasil, sempre me lisonjeou pelo respeito com que tratei a sua história.

Há pouco mais de um ano, Francarlos Reis morreu, morte repentina. Nós, seus amigos, sentimos a profunda dor de uma perda irreparável, pois Francarlos foi um desses seres humanos que se não repetem. De minha parte, a dor da perda repercutiu-me na alma ainda mais sofridamente, pois estivéramos juntos poucos dias antes. Ele me convidara a assistir à peça “A Cabra”, na qual a sua interpretação fora admirável. E lá nos fomos ao teatro, a minha então companheira e eu. E, depois, saímos para jantar, numa das cantinas italianas que ele amava, que pessoas sensíveis amam. Lá estávamos numa noite adorável: ele, José Wilker, José Renato, Marco Caruso, eu com minha companheira, alguns outros artistas e intelectuais.

Naquela noite, diante de uma cena grotesca de um casal gay, numa mesa ao lado, Francarlos Reis indignou-se e nos falou, acho que agora entendo como se fosse mensagem ou testamento: “Essa promiscuidade não pode continuar. Homossexual é uma coisa; bicha é outra. Homossexualismo é condição séria e respeitosa; essa festa gay não passa de veadagem.” E ele me cobrou, quase exigindo, que eu escrevesse a peça teatral que lhe devia, que lhe prometera: a minha visão de escritor heterossexual em relação a um homossexual de tal genialidade e decência como ele. José Wilker também me cobrou. E prometi tentar compor a peça teatral.

Essas coisas, escrevo-as, quando ocorre mais uma melancólica, triste e patética farra gay em São Paulo, em homenagem a Francarlos Reis e a homossexuais que vivem definições, incertezas, angústias e escolhas que nada têm a ver com espetáculos patéticos de momices e de afetações. Esses nossos dolorosos tempos de espetáculo e de mercantilismo destroem tudo, absolutamente tudo o que há de respeitável na alma humana. A farra gay interessa apenas aos que a exploram comercialmente, com interesses de lucros. E multidões de tolos, de equivocados, a multidão que o próprio Francarlos chamava de bichas malucas e veados idiotizados não passam, na verdade, de objetos usados pela indústria da pornografia, do espetáculo, do carnaval, do entretenimento sem qualquer mérito, valor ou dignidade.

Essa farra gay não passa, na verdade, de um charlatanismo econômico-financeiro. E é doloroso presenciar a multidão de tolos que a isso se sujeitam, é doloroso ver a banalização e a vulgarização de condições humanas que, de tão complexas, merecem e exigem mais respeito e pudor. Essa farra gay não dignifica nada. Pelo contrário, em meu entender – no de um heterossexual que tentou descrever os conflitos de um amigo e sua história feita de dores e seriedades – transforma em palhaçada, em espalhafato, em simples vulgaridade uma condição humana que atravessa milênios de história sem que se encontrem respostas. Uma farra gay se assemelha, em quase tudo, a uma passeata ou a um festival da maconha. Qual a necessidade de movimentos de massa, quando a questão é apenas pessoal? Como, atrevo-me a dizer, poderei admitir que desvairados fantasiados de mulheres ou de homens, grotescos e patéticos, tentem se colocar no mesmo nível sério, decente, digno, sóbrio de um homossexual como Francarlos Reis? Minha aversão a essa farra coletiva é, peço que a aceitem assim, homenagem a homossexuais recatados como Francarlos Reis.Há 45 anos, tentei, como contador de história, dizer como o outro, diferente de nós, deve ser respeitado. E, 45 anos depois, insisto nisso, repudiando os tolos que aceitam ser instrumentalizados, esses falsos atores de uma chanchada de mau gosto. E bom dia.

PS: Quanto ao trabalho dramatúrgico, escrevi as primeiras cenas. Francarlos chegou a lê-las, empolgando-se. Dei-lhe um título, que me pareceu o único possível já que inspirado na vida dele: “Ela é eu.” Quando Francarlos morreu, interrompi a peça. Apenas ele poderia representá-la.

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