A mulher na padaria

PadariaAfastei-me do burburinho suicida da cidade já há 25 anos. Fui para locais mais distantes, onde o recolhimento pudesse fortalecer-me o espírito combalido de tanta perplexidade. Cheguei ao ponto de duvidar fosse, o ser humano, imagem e semelhança de algo belo e generoso, quase o vendo como excrescência da natureza, uma forma de entropia degenerativa. No silêncio e no recolhimento, recuperam-se os olhos de ver. E o coração de sentir.

Viver próximo de pessoas simples possibilita uma visão mais generosa da vida, quando se começa a perceber a importância de pequeninas coisas que, para uma classe média abastada, não passam de migalhas. Para os pequeninos, a compra de uma simples geladeira é uma festa. E um sonho, adquirir o primeiro carro, nem que seja dos mais antigos, lataria judiada. Um pedaço de pão é quase sagrado, o que me fazia lembrar de minha mãe quando, na infância, ela nos proibia jogar fora pedaços de pão, ensinando: “Dê um beijo no pão e apenas o deixe de lado.”

Continuei fazendo compras no mesmo bairro, a mesma padaria, o mesmo supermercado. Há alguns anos, vi, na fila de compras, a mulher pálida, desgastada, com uma criança ao lado, não se podendo saber se filho se neto, tal o envelhecimento precoce dela. Eu ia comprar queijo e pão. Ela, também. À minha frente, ouvi-a pedir: “Quero quatro pãezinhos e 12 fatias de queijo prato.” Era à tardezinha. E, então, dei-me conta de que ela estava comprando o jantar da família: um pãozinho com três fatias de queijo para cada um. Dei meia volta, fui-me embora, não conseguindo comprar o que eu queria, um nó na garganta, envergonhado de mim mesmo.

Outras vezes, encontrei a mesma mulher. Passava um tempo, deixava de vê-la. De repente, ela aparecia, agora sem o menino. Aos poucos, percebi a mudança dela, a expressão do rosto, a cor da pele, um sorriso que retornava afastando os traços de velhice que lhe marcavam o semblante. Alguns anos se passaram, e eu lembrando-me daquela mulher que comprara 12 fatias de queijo e quatro filãezinhos apenas quando a vida.

Há alguns dias, eu a encontrei novamente. Na mesma padaria, também ao entardecer. Não sei seu nome, nem onde mora, o que ela e a família fazem. Mas prestei atenção no pedido que fizera: uma dúzia de pães, 250 gramas de queijo prato, 250 gramas de presunto. Era uma outra mulher. Foi quando comecei a entender o que significa para o povo o Bolsa Família, alguns reais a mais no salário, aquele dinheiro que nós, petulantes burgueses, chamamos de “dinheiro de pinga”.

Na farmácia, ouvi, à minha frente, uma outra mulher dialogando com a moça do caixa, agradecendo o presidente Lula pela farmácia popular: “Esses medicamentos ficariam em quase 50 reais e estou pagando menos do que cinco.” A moça do caixa suspirou: “Eu já estou com saudade dele.” Há um novo povo surgindo, uma nova população, como se houvesse indícios daquela profecia bíblica de que “os pobres herdarão a terra.” E não adianta o ranger de dentes de uma minoria perdulária, irresponsável, insensível diante da realidade da vida, que nada tem a ver com qualquer “reality show”, nem com filmes paradisíacos.

Haja o que houver na votação do dia 30 de outubro, a verdade é que o povo é outro. E a mulher, na padaria, não compra mais apenas quatro pãezinhos e 12 fatias de queijo. Bom dia.

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