A música que falta

picture (58)E, então, com estranheza honesta, a mulher me indagou do porquê das tantas culpas, o sentimento que não me abandona. Rindo-se, ela foi assertiva: “São culpas de cristãos, de católicos. Freud já sabia disso.” E continuou rindo-se, rindo-se, risos que, para mim, o mesmo Freud diria serem de histeria. Mas me entristeci. Não com a pergunta, nem mesmo com estranheza dela, estranheza honesta. Entristeci-me com a certeza da mulher. Para ela, culpas são tolices. E culpas, eu as tenho, tenho-as muitas, culpas de tolices tantas. Pois, diante de espetáculos horrendos de uma humanidade embrutecida, como não se sentir culpado? Foi então e quando desisti.

Ora, como é possível alguém existir sem culpas, sem remorsos? Até hoje, acompanha-me a tristeza de, aos meus cinco anos, ter, eu, matado um passarinho, o estilingue que usei para atingir-lhe o peito. É a primeira culpa de que me lembro. E o primeiro e dos meus muitos e posteriores remorsos. Como pode haver quem não os tenha, culpas e remorsos?

E como se pode amar alguém sem remorsos, sem culpas? Então e de repente, sinto que levado por algo oculto na alma, fiz apenas uma pergunta, nascida daqueles meus íntimos confins de labirintos: “E a nossa música, qual é?” Ela me olhou com outra estranheza, uma agora assustada estranheza . E me falou: “Não temos uma só. Temos muitas.” Ora, quando nada se tem, inventa-se ter tudo. Descobri-o, enfim, como que numa iluminação.

Lá, então, me fui passear, passeando-me por ruas e lugares de mim mesmo. E vi a esquina onde, lá e longe, íamos chupitar sorvetes. Eram de baunilha, os nossos preferidos. Tínhamos, os adolescentes dos ingênuos 1950, segredos empolgantes: tocar no dedinho da namorada, o primeiro beijo na face, o tremor de lábios apenas se tocando. Falar em segredo era bichanar. Bichanávamos nos ouvidos, a emoção palpitando no corpo. Diferentemente do mal-fazer destes tempos, as pessoas de antes se bem-faziam à alma uma da outra.

Nem mais sei o que tento dizer, nesse que se me tornou muito mais um hábito ou um vício de pensar do que compulsão de escrever. Há, ainda, sonhos vivos, muitos. E são os mais belos e simples, pois sonhos de homem acordado, já com passos incontáveis nas estradas e ruelas da vida. O meu é, até hoje, amor de aldeia e de campanário. Vi cantos, esquinas, espaços. Transformações, entendi-as. Mas, entre delírios, senti minha própria pergunta ainda me atoleimar de saudade: “E a música?”

Estarreci-me. Pois – no som das águas entristecidas do rio de minha aldeia, no silêncio do campanário – descobri ter sido amor de apenas uma, de uma única música. Éramos pouco mais do que duas crianças. No escurinho do cinema, toquei-lhe o dedinho da mão esquerda, com o dedinho de minha mão direita. E também revivo o arfar do coração, a respiração da menina, voltando a sentir o tremor de nós dois, à voz de Libertad Lamarque, à música e ao filme Violetas Imperiais. Ora, pouco há de tão prosaico como Violetas Imperiais, talvez nada de mais antigo e ingênuo. Mas, ao sair do cinema, propus e ela aceitou: “É a nossa música.” E foi. Até quando o homem tentou matar o menino de dentro de si.

E, até hoje – com outros amores, verdadeiros e inventados– até hoje, nunca mais houve música que pudesse ser música de dois, a “nossa música”.

As violetas continuam imperiais e teimam em permanecer vivas. Mas apenas no coração. E em silêncio de luto. Bom dia.

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