A nudez de Marina

Marina SilvaMarina Silva, enfim, ficou nua. E mostra, realmente, aquilo que é, por inteiro, completa: falsamente ingênua, falsamente sincera, falsamente verdadeira. E o falso verdadeiro ou o verdadeiro falso são, na verdade, enganações perigosas. Pois possibilitam perguntar-se aquilo que já se perguntava de e a Marina Silva: o que está por trás disso? O que há por baixo da máscara?

Idiota, Marina não é. Nem ignorante. Não se pode, portanto, alegar tratar-se de alguém pouco informado, de visão equivocada, com falsa percepção das coisas. Marina sabe o que quer. E age conforme seus objetivos e desígnios. Sua carreira política foi traçada dentro de uma linha ideológica que a todos fascina e contra a qual ninguém pode discordar: a defesa do meio ambiente. Quem seria a favor da destruição das matas? Quem aplaudiria a poluição de águas? Quem defenderia o apetite voraz e criminoso de devastadores da natureza? Esse discurso é agradável, fácil, simpático, afável. E Marina soube fazê-lo com a mesma simplicidade com que a freira do colégio de moças recita o terço ou reza as matinas. Mas nada apresentou além disso. Essa mulher é um discurso.

Marina, ao se declarar neutra no segundo turno – o eufemismo que usou foi “independência” – ficou nua e sua nudez não é bonita. Alguém com liderança política não tem o direito – a não ser por interesses pessoais ou de grupo – de se abster de tomar posição. Partido político significa ser parte de um processo. Quem se exclui não é parte. Quem não toma parte não faz parte. Marina pensou que, com sua docilidade, poderia passar incólume por essa desfaçatez com que se apresentou a seu eleitorado. No fundo, ela quis dizer apenas o seguinte, a enorme pretensão e arrogância que sempre se escondem por trás dos falsos humildes: “Ninguém serve, a não ser eu. Nenhum partido presta, a não ser aquele no qual estou.” E por enquanto.

Durante o primeiro turno, como se fosse a madre superiora, Marina Silva não conseguiu fazer uma contestação sequer a Fernando Henrique ou a Lula, a Dilma ou a Serra, usando luvas de pelica, esgrimindo punhalzinho curto, escondendo irritações ou raiva por trás de um sorriso permanente, fixo no rosto como se fosse uma máscara. Ora, se num processo eleitoral importantíssimo para os destinos da nação, Marina Silva – que conquistou tantos milhões de leitores – se recusa a ser parte, a definir-se, a fazer opções, para que ela serve como líder, qual a importância que tem para a vida nacional? Afinal de contas, o Brasil todo sabe – e cada brasileiro consciente sabe especialmente – que, nos últimos tempos, não temos votado em candidatos ideais, mas sempre no que nos parece o menos ruim. Vota-se neste para evitar que se eleja aquele, como se a escolha sempre seja para impedir o dano maior.

Marina Silva mostrou que, realmente, ela tem importância para a vida pública brasileira apenas como missionária de movimentos ideológicos, salvíficos, moralistas e moralizantes. Ela confundiu palanque com púlpito, religião com partido, política com redentorismo. Ficou nua, revelou-se toda. E sua nudez é feia. Interessa a poucos: grupos, seitas, em assembleísmo desinteressante. O bom observador já tinha notado haver algo de estranho na postura, no comportamento e na dubiedade de Marina Silva. Diante de sua nudez, tudo, agora, se explica. Ela nem começou e já chega ao fim. Bom dia.

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