A parada do trem

Parada do tremAo alongar-se da idade, uma das belezas é continuar surpreendendo-se com algumas coisas e não mais estranhar quase nenhuma outra. Há a frase de Ticiano que me parece definitiva para quem teve o privilégio de viver muito: “Nada do humano me é estranho.” Suicídios, abortos, incestos, estupros, violações, violentações, guerras, tentativas de paz, heroísmos, covardias, virtuosismos, canalhices – nada disso é estranho para quem se alonga na vida. Mas surpreende mesmo assim.

Ora, tudo o que está acontecendo aconteceu antes. Lá está, no livro sagrado que, para mim, continua sendo mais sábio do que santo: “Nada há de novo sob o Sol.” Ou na frase que deu livros e filmes: “Nada de novo no front.” E, ainda, na invasão francesa a Portugal, quando da fuga de D.João VI, a frase da acomodação: “Está tudo como dantes no quartel de Abrantes”. No fundo, no fundo, o resumo disso é que nada muda, nada mudou. Ou não haveria motivo algum para continuar-se a repetir o fraseado de Lampedusa: “Mudar para continuar tudo igual.” E, finalmente, a sabedoria popular dos franceses: “ plus ça change, plus ça la même chose.”, esse quanto mais se muda, mais tudo fica a mesma coisa.

Mas as coisas mudam. E os homens e o mundo e as nações. Se para melhor ou pior, essa é outra conversa. A grande questão é que homens e mundo mudando nada impede que tudo continue igual, razão porque nada há, realmente, de novo sob o Sol. E isso, de certa forma, é triste nessa eterna saga – que me parece, hoje, como que uma penitência do ser humano – do desencontro de gerações. Os que chegam sempre pensam que tudo começou com eles. E os que se vão acreditam que o mundo terminará com eles, com sua geração. O que os jovens acrescentam acaba envelhecendo. E eles, jovens, também. E o novo envelhece e o modismo acaba. Se a raiz é preservada – como ocorre com árvores milenares – tudo se vai repetindo, renovando-se, renascendo, morrendo e ressuscitando. Aí estão os ciclos da natureza para não nos enganar: Primavera que se torna Verão e se faz Outono e descansa no Inverno.

Quê estou, eu, afinal de contas, querendo dizer? Nada. Estou apenas olhando, observando, homem à margem da estrada vendo a manada passar, indo-se aos milhares e retornando cada vez mais diminuída. Pois ir é fácil, basta deixar-se levar. Retornar é complicado, pois, quase sempre, se trata de decisão da vontade, da consciência, da sabedoria. Vai-se para o desconhecido, mas o retorno é para o lugar já conhecido. Acreditar, pois, no eterno retorno do homem e das sociedades parece-me ser, hoje, não apenas uma questão de sabedoria mas, em especial, de esperança. Se o respeito e a decência agora mortos não retornarem a seguir, o que terá sobrado sob os escombros, nas ruínas?

A classe política passou a ser parte da manada, sendo levada, manipulada por forças mais amplas e poderosas, as da ordem econômica. Estamos diante de falsos líderes que, no fundo de si mesmos, mal sabem o que estão fazendo, a não ser usufruir parcialmente do poder que alcançaram. Contentam-se com sobras e, destas, entregam migalhas ao povo. Por que alguém vota no Tiririca, senão como uma quase desesperada forma de protesto, de desprezo, de desilusão? Mas, na verdade, são esses rebeldes que tentam escapar da manada – como os sábios, poetas, artistas – que podem sacudir o conformismo estabelecido, atrevendo-se a dizer que nem tudo está como antes no quartel de Abrantes. Se nossos jovens continuarem acarneirados e tratados como bandos ou tropas, o retorno será cada vez mais difícil e ainda mais distante.

Na Primeira Guerra Mundial, uma parábola correu mundo. Na Inglaterra acomodada, era como se o mundo exterior não existisse e que nada poderia acontecer sem as bênçãos da “pax brittanica” ou por iniciativa do império. Foi quando o pensador Samuel Smiles contou a historieta exemplar. Um jovem desceu do trem e foi advertido pelo condutor: “Você não pode descer aqui.” O jovem respondeu: “Mas desci.” O condutor insistiu: “Mas o trem não para aqui.” E o jovem: “O trem parou.” Os outros passageiros não tinham percebido.

Em Piracicaba, isso também está acontecendo. Poucos descem do trem, pouquíssimos perceberam que o trem parou. Bom dia.

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