A parisiense e o caipira

picture (87)Delírios, quando se pensa tenham-se ido embora, retornam. Vão e voltam, voejando. Por isso, perdoem-me se me escapa a alma em torno de coisas e fantasmas. Pensar embriaga. Lua mudando, também. Há tempos, aprendi e repito que tudo podem ser embriaguezes: veres e olhares, ouvires e escutares, tocares, sentires. Coisas triviais, como rimas de amor. Por que, então, escrever delas?

De minha parte, sei do motivo: desaprendi de ler nas estrelas, de rabiscar nelas. Logo, hei que escrever no papel, no muro, na parede, na árvore, num pedaço de chão, sejam palavras ou um risco, bilhete ou romance de amor. Nas trivialidades, esconde-se o “mysterium tremendum”. E, de vez em quando, aparece.

Coleciono bonequinhos de resina e de cerâmica. Juntei-os, um a um, como se os dispusesse num palco. Tenho o velho bêbado, a dançarina, o pescador, a vendedora de peixes, casais enamorados, palhaços. Em noites de perplexidade maior, manipulo-os como se fossem marionetes e lhes dou vida, invento histórias que sei escondidas por trás das feições inanimadas. E, então, faço o pescador fugir com a dançarina, os palhaços animarem o bêbado, o mendigo casar-se com a princesa. Invento e me sinto enlevado, não sei se mais humano, se mais próximo do divino. Inventar é criar.

Meus olhos, porém, esbarraram no retrato de minha avó, gorda, linda, o colo salpicado de jóias. Vi-a, ainda pequenino, apenas uma única vez na vida. E nunca mais me esqueci dela. Do magnetismo da avó, fui atraído pelo do meu tio, filho dela, olhar faiscante de poeira do deserto. A partir deles, um quase cansaço, como, enfim, a aceitação de um destino, essa milenar certeza árabe: está escrito. Tudo. E escrito nas estrelas.

Não sei como se pode fugir ao fascínio de cada instante. Pois é na trivialidade das coisas que se revela a absurdidade de um estilo de vida suicida, esse que os ocidentais escolhemos. Somos compositores do banal, cada um de nós. Tanto quanto o escritor, o poeta, o pintor, o escultor, o músico. De banais e prosaicas maçã e banana, Monet fez arte imortal. E cada fuga de Bach é um arabesco. Cada acorde, um adorno. Ou adereço. Mas quantos têm alma de vê-los e ouvi-los?

A memória tem que ser cultiva, morre-se sem ela. É o elo entre o que foi e o que está. O por vir não se sabe. E será que importa? Na realidade, tudo importa. Mas ficamos olhando o próprio umbigo e não enxergamos o essencial. Que, aliás, a velha raposa de Exupéry dizia ser “invisível aos olhos”. O simples é complexo; a complexidade parece simples. Para alguns, terremotos e dilúvios e bombardeios são simplicidades. Para outros, o simples soprar da brisa é complexo. Por isso é preciso compor, inventar. Por que não?

Pensei, primeiro, no meu tio de olhos faiscantes, herói do motociclismo, moço rico que se tornou o bíblico filho pródigo. Ele, em suas farras em Paris, apaixonou-se por uma prostituta francesa, casou-se com ela, meus avós o estigmatizaram. Que o amor foi lindo, embora fracassado. Mas, se lindo, por quer fracassou?

Até hoje, vendo fotos dos ancestrais, penso em meu tio e sua mulher francesa. Nas histórias que invento com os bonequinhos, penso no fracasso daquele arrebatado amor e numa causa que poderia ser das mais prosaicas e banais: e se a mulher tivesse, apenas, achado Paris mais interessante do que Piracicaba? Amor de cabana e de violão, só mesmo como letra de música. Inventei outra história com meus bonequinhos. Inventar é criar. Mas está escrito nas estrelas. Bom dia.

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