A prática do amor

As pessoas continuam perdendo o bom humor. Sentem-se inseguras e, por isso, estão tornando-se tristes, amargas, angustiadas. Há muitos anos, lembro-me de que tínhamos encontros para jovens, adultos e casais, cujo centro era a valorização da vida interior das pessoas. É verdade que, por ser inspirado em linhas da Igreja, aqueles encontros tinham muito de moralistas e, talvez, um excesso de religiosidade. Pecávamos, certamente, por uma ausência de praticidade e por um excesso de espiritualidade. Não havíamos conseguido, essa a verdade, a síntese humana. E não soubemos como propô-la.

Assim, as respostas estavam muito mais no transcendental do que na prática do amor e da vida. Foi um erro, mas eram encontros que auxiliaram muitas pessoas, que descortinaram horizontes. Os mais inteligentes souberam encontrar a síntese. Alguns se complicaram. Mas outros se desiludiram.

A quase certeza que me fica é a de que não existem soluções massivas. O ser humano é de tal forma único em sua história pessoal que a única resposta tem que ser, também, pessoal. Daí, talvez, o sucesso que fazem psicanalistas e terapeutas: são histórias individuais com conversas individuais.

Há muitos anos, no entanto, lembro-me de que o problema das pessoas começava a instalar-se a partir de inseguranças materiais. Dois referenciais já estavam sendo apontados como essenciais para a vida moderna: o dinheiro e a tecnologia. Assim, quem não tivesse dinheiro ou não participasse do novo mundo tecnológico, haveria de sentir-se excluído. E essa exclusão acontecia também, ou especialmente, no amor. As pessoas começavam a ter medo de amar justamente porque a vida se baseava em valores mais práticos, materiais.

Já morria o velho sonho de jovens amantes, o de “uma choupana, eu e você e nada mais”. Os moços apenas pensavam em se casar se, já antes de fazê-lo, tivessem todas as seguranças materiais. Passava a ser impossível conceber o amor diante de possíveis dificuldades materiais ou financeiras. O amor não sobreviveria, essa a consciência que já existia entre os moços, algo que se acentuou ainda mais nos anos 80 e 90.

O fato é, porém, que acabamos nos esquecendo de dizer o que é o amor, ou dizer que ele existe, que é algo anterior à própria pessoa humana e que é do que e para que ela vive. No fundo, o amor é uma prática. Como, porém, as pessoas não tem mais tempo senão para a prática de ganhar dinheiro e de participar do mundo tecnológico, deixou de existir a prática do amor. Hoje, o amor se tornou algo que se tem, não que se conquista, que se constrói, que se elabora. E ninguém tem o amor de ninguém. Ou se constrói ou o tempo destrói. E eis o pior de tudo: isso somente se aprende na vida. E nem sempre há tempo. Bom dia.

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