A santinha aparecida

pictureNasceu em Campinas o homem que mais me marcou a vida. Padre, foi sagrado bispo num tempo em que a autoridade eclesiástica era conhecida como Príncipe da Igreja. Mas ele, até o fim de seus dias, permaneceu humilde como um cura de aldeia, a própria imagem do Cura d´Ars.

Nem sequer precisei acreditar em anjo da guarda: apareceu e era verdadeiro. Apesar de mim, de minhas resistências e brigas interiores. O anjo tinha nome: Aníger – anagrama de Regina – e Maria e Francisco. Nascera com a doçura e a sensibilidade de Francisco, a dignidade humana de alguém com alma de rainha e a vocação mariana de servir no silêncio, na humildade.

Foi ao início do golpe militar, em 1965. Quando a quartelada aconteceu, eu já me afastara do Partidão, decepções e amarguras jovens. Mas ficara o vazio da falta de referenciais, como que um vácuo na alma. Obviamente, religião tinha sido, também para mim, o “ópio do povo”. O discurso, hoje, parece-me muito mais sartreano do que marxista, um pessimismo mais amargo do que inteligente. Por isso, foi perturbadora e desafiante uma nova questão: a Primavera da Igreja, com João XXIII, insinuava a possibilidade do compromisso histórico sonhado por Gramsci, entre marxistas e cristãos.

A Igreja parecera, aos intelectuais, mais lúcida do que os Partidos Comunistas no mundo. E foi à sombra dela, no Brasil, que surgiram políticos da estirpe de Franco Montoro, Carvalho Pinto, Plínio de Arruda Sampaio, Paulo de Tarso, Chopin Tavares de Lima e poucos outros. Eles ousavam construir uma proposta alucinada e alucinante em sua contradição: a democracia-cristã, síntese entre o monarquismo da Igreja e a democracia republicana. Seria, então, a terceira via.

Amargo, tentei ficar à margem dessa florada, ex-comunista solitário, rebelde sem causa, a primeira filhinha recém-nascida. Então, fui apanhado pelo golpe, levado à Justiça Militar e entendi a advertência de Pedro Aleixo: “numa ditadura, o guarda da esquina é mais perigoso do que o ditador”. Transformaram-me – ora, quem diria? – em ameaça à “segurança nacional”, um subversivo aos 25 anos, com idéias confusas e num jornalzinho do interior.

Eis a tristeza que me acompanha: sem conhecer pessoalmente o bispo Aníger Melilo, eu o menosprezava. E, então, meu processo junto à Justiça Militar foi repentinamente interrompido por uma carta. Era dele, a carta de um anjo, de Aniger, rainha, regina. Em poucas linhas, ele fizera questão de manifestar-se aos militares diante do que lhe parecia um equívoco. E informou: “o jornalista é um bom cristão, dou testemunho disso.” Ora, mesmo quando quis, nunca consegui ser bom cristão.

Num homem com nome de rainha, foi-me revelada a dimensão divina do humano, a certeza de existir a bondade, de ser possível a compaixão, o amor fraterno e a solidariedade que tanto busquei em ideologias e na política. Serei indigno da vida se negar a prevalência do bem sobre todas as coisas, pois sou testemunha de que o amor existe. E amolece até os mais duros corações, como amoleceu o meu.

Pois bem. O anjo, pouco antes de morrer ou de ficar encantado, me deixou uma herança: o capacete que seu pai, o jurista Vicente Melilo, usou na revolução paulista de 1932; a fotografia oficial de sua sagração como bispo, anotações manuscritas. E, além de ter-me apresentado à Eucaristia, ele me deixou duas lembranças de gesso: uma estatueta de São José, uma outra de Nossa Senhora. Guardei a herança em lugares tão bem guardados que até me esqueci delas.

Há alguns anos, remexendo em baús, encontrei a imagem da santa. Estava desbotada, desfizera-se a pintura, enfeara. Perguntaram-me de qual Nossa Senhora era aquela imagem, se a de Fátima, se a de Lurdes. Não soube responder. E, então, alguém me pediu para levá-la a freiras, especializadas em restauração. Lá se foi a imagem e, quando nem mais me lembrava dela, foi-me devolvida toda bela, esplendorosa, diria que com frescor de coisa viva e com uma informação: a imagem é de Nossa Senhora Aparecida.

Deixei-a em lugar privilegiado na sala onde erigi meu baú de ossos, recordações, valores, raízes: fotos de avós, de meus pais, da falecida mãe dos meus filhos, do anjo Aníger, o terço de minha mãe. E a santinha aparecida. Como aconteceu, não consigo explicar, mas é como um altar. Toda vez que passo ao lado deles, me sinto envolvido por uma doçura infinita. Há um candelabro antigo e, no último Natal, acendi velas.

Acho que me habituei e continuo a acender velas. Sem nada pedir. Para agradecer. A santinha aparecida, tenho a impressão, sorri para mim.

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