A Senhora

Continuo tentando ser católico. É uma das mais difíceis lutas de minha vida. Pois, para mim, ser católico é um desafio, constante, permanente, diário que exaure forças mentais. E isso me cria problemas permanentes, pois sou dos que insistem em conciliar, harmonicamente, cérebro e coração. Tenho que entender com o primeiro e sentir intensamente com o segundo. A razão, em meu entender, serve-me para atender de forma inteligente a sabedoria do coração. Esse esforço exaure forças mentais, ainda que alimente as espirituais.

Tem-me sido uma longa e doída jornada, de conversões e reversões, de idas e de vindas, de crenças e descrenças. A Igreja humana me fascina com a sua duas vezes milenar história de grandezas e de misérias. Na sua dimensão divina, eu me atrapalho, quase que me perco. De qualquer maneira, acabei aceitando ser intensa a minha religiosidade, mesmo que seja, eu, um homem deficiente em relação à religião e religiões. Ser católico, em meu entender, não tem meio termo: é ou não é. Pois se há dogmas, eles não devem ser discutidos, mas simplesmente aceitos. E tenho cabeça e alma rebeldes. Fico, então, pelo caminho. Enfim, luto por ser católico, tenho vontade. Mas permaneço no ir e vir, no ser e não ser.

O mais perturbador em tudo isso é minha relação com Maria, a Senhora, a Nossa Senhora. Minha razão paralisa, minha inteligência desaparece, fico anestesiado. É como se ela me neutralizasse por inteiro. Ou de tal forma de atraísse que, sem forças, rendo-me. Nosso saudoso e querido bispo D.Eduardo, disse-me por muitos e muitos anos: “Deus o persegue, amigo. Você brigou com Ele, com Jesus, com políticos, com poderosos, mas nunca brigou com Maria.” É verdade. Pois ela, não sei de que forma, parece estar escondida tão profundamente em alguma parte de mim que sinto como se me estivesse na carne.

Talvez, Freud explique, mas também não me interessa. O fato é que – passadas tantas e tantas décadas de minha infância – ainda hoje vejo minha mãe sentada aos pés de minha cama rezando comigo as Ave Marias noturnas. Sinto, ainda hoje, o conforto, o reconforto, o aconchego daqueles momentos. De mãos dadas com minha mãe, eu repetia o mantra, como se a oração da Ave Maria fosse algo mágico. E era. Ou, talvez, ainda seja. Tenho, também comigo, um terço de minha mãe, o mesmo que estava em suas mãos no caixão no qual foi enterrada. Tirei-o das suas mãos frias, guardei-o comigo.

E meu pai, um maçom, indo orar para a Nossa Senhora que, até hoje, está, em retrato e com flores, na janela envidraçada do Lar Escola Maria Nossa Mãe, na rua Boa Morte? Quando, em horas dolorosas da vida familiar, meu pai desaparecia, eu sabia onde encontrá-lo: ele estava lá, diante da santinha, o olhar fixo para o alto, orando em silêncio. Será que Maria foi herança deixada por meu pai e minha mãe, será?

Não sei mais nada. O meu inesquecível D. Aníger me presenteou com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida tão antiga que acredito já seja quase secular. Paradoxalmente esplendorosa e humilde, ela está lá na mesinha que transformei em meu altar de memória: fotos de meus avós, de meus pais, de D.Aníger, objetos outros que considero sagrados. Acendo velas, num ritual que me parece ao mesmo tempo pagão e católico, profano e sagrado. Há religiosidade no ar, não sei se há alguma religião. Mas Nossa Senhora está lá, como que apenas observando tudo. É esse silêncio de Maria que sempre me perturbou a vida toda. Ela fala sem nada dizer. Ela está sem aparecer. Como pode isso?

Hoje, Dia de Nossa Senhora Aparecida, nada farei de diferente ou especial. Ela está lá. Fico pensando em religiosidade. Acho que Deus não tem nada a ver com isso. É o divino que nos foi deixado. Religião mais do que re-ligare (religar o homem a Deus) é o re-ligere, a contemplação. Quanto a ser católico, o que mais me perturba é a versão grega da palavra. Pois, quando se diz – pela origem latina – que católico é universal, a palavra grega – khatos – significa integral. Logo, católico é o ser humano integral. O que há mais difícil do que isso? Tem que ser a luta de toda uma vida. E, pensou eu, às vezes: não valeria a pena tentar? Bom dia.

Deixe um comentário