A suposição supondo o suposto

picture.aspxFica cada vez mais difícil – vindo de um tempo em que pau era pau; pedra, pedra – conviver com o morno. Pois as coisas já não são mais nem quentes, nem frias. E as posições tornaram-se clássicas em sua quase unanimidade: em cima do muro. Fazem-se as mais estapafúrdias afirmações e passam, elas, por verdades absolutas ou reflexões geniais.

 

Há algo mais estúpido do que respostas de jogador de futebol a repórteres esportivos? Antes do jogo: “A equipe está preparada, vamos entrar para vencer.” No intervalo: “No vestiário, vamos fazer alguns acertos.” Ao final do jogo, se venceu: “O time foi bem, merecemos a vitória.” Se foi derrotado: “Vamos pensar na próxima partida.” Por que repórteres perguntam se já sabem as respostas?

 

E políticos? Tornou-se clichê a resposta – que passa por inteligente – que dão a respeito de desdobramentos dos fatos políticos: “Não reflito sobre hipótese.” Em vez de ser inteligente, a resposta é comprovação de tolice. Pois, com exceção do passado, o que é a vida senão um turbilhão de hipóteses? O próprio amanhã é simples hipótese, pode acontecer ou não. O futuro é hipótese. O minuto seguinte. Quem não reflete sobre hipóteses sequer reflete. Uma decisão – seja simples, banal ou totalizante – é tomada a partir de hipóteses. A opção se faz diante da alternativa. Que também se formula por hipóteses.

 

Jornais há – apesar de tanto se proclamar um jornalismo objetivo – que parecem brincar de ser ou não ser, de esconde-esconde. Fatos como que se tornaram suposições, na contradição dolorosa: atitude objetiva não é suposição, mas afirmação. Se se revela um fato e não se apresenta a fonte, dá-se, ao leitor, todo o direito de duvidar da narrativa. É como um “ouvir dizer”. Quem levaria a sério um acadêmico que, fazendo citações, não revelasse a origem?

 

Quem pode proteger-se de “fonte ignorada”? E o que significa “proteger as fontes” de informação? Ora, o leitor está cada vez mais indefeso diante de notícias divulgadas “segundo fontes” e, pior ainda, “conforme fonte que não quis se identificar”. E mais indefeso pelo uso quase vicioso de suposições. A “suposta máfia dos sanguessugas”, o “suposto envolvimento de empresário de Piracicaba”, um “suposto amigo do prefeito”. Não é assim que as coisas se divulgam? Para o bem e para o mal, a suposição anda salvando jornalistas da obrigação de posicionamentos claros.

 

No caso da Unimep – que tanto deveria interessar a imprensa e políticos de Piracicaba – noticiar ou não noticiar, participar ou não participar têm sido como que a mesma coisa. Então, as informações ficam assim: na suposta nova Unimep, de um suposto novo diretor geral, o suposto Conselho Diretor, de supostos metodistas pentecostais, há uma suposta tentativa de suposto aniquilamento acadêmico em favor de um suposto fortalecimento das supostas propriedades do suposto instituto supostamente mantido por uma suposta mantenedora.

 

Por minha óptica, que não é suposta, posso supor uma desmoralização final do suposto reitor e dos supostos comandantes dessa suposta destruição. Pois, mesmo encoberta por farsas religiosas, a verdadeira Unimep está reagindo e não é uma suposição. É o que, pelo menos, suponho eu. E bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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