A triste vulgarização metodista

picturePiracicaba convive, há quase 150 anos, com a fé metodista. E o Metodismo de Miss Martha Wattis se tornou marca fundamental da formação moral e intelectual do povo piracicabano. De minha parte – como cidadão e pretenso analista – confesso não saber avaliar a dimensão das duas influências marcantes em nossa gente, a católica, a metodista. Pois, quando católicos se uniam ao Império, foram metodistas – e protestantes de outras denominações – que inspiraram republicanos, maçons, sob a liderança dos Moraes Barros.

Ora, o Colégio Episcopal Metodista – mediocrizado por fanáticos fundamentalistas – não deve ter a mínima noção histórica do que foi e ainda seja, em Piracicaba, essa força moral, cultural e religiosa do Metodismo de Martha Watts e dos que a seguiram. Pois, tivesse-a, o colegiado ter-se-ia dado conta de Davi Ferreira Barros ser um desses mais espantosos acidentes intelectuais e espirituais de uma cidade, para não dizer de um credo, embora não mais se saiba qual o Credo metodista, se o dos oportunistas, se o dos verdadeiros discípulos de Wesley. Piracicaba, apesar dessa confusão e nessa vulgarização insuportáveis, conhece, apenas, o Metodismo semeado por Miss Martha Watts, a quem aprendeu a amar, a respeitar e a admirar.

Como piracicabano e jornalista, orgulho-me de acompanhar essa história desde a minha mais tenra infância, ainda quando os preconceitos entre católicos e protestantes impediam aqueles até mesmo de passar pela calçada do Colégio Piracicabano. Era instigante, aos meninos e adolescentes do Pós Guerra, saber de valores a ser questionados, de outras visões de vida e de mundo. O Metodismo de Martha Watts produziu, em Piracicaba, o que tivemos de mais fecundo e fértil, o exercício da dúvida.

Davi Ferreira Barros nada tem a ver com esse ideal de Martha Watts e de tantos homens e mulheres que o viveram há quase 150 anos. Sofrido e complexado garoto da antiga e triste Vila Viziolli, valente vendedor de pamonhas e da Rua do Porto, Davi buscou, a qualquer preço, um lugar ao sol. Seria bonito e legítimo tê-lo feito, não fosse a sua falta de limites, os recursos condenáveis, traições sombrias. Buscou e ainda busca a proteção de grupos, desde que mais medíocres do que ele próprio. Não tem olhos e alma para universalidades, para assumir riscos próprios, para ousar vôos sem mesquinhez. E a Igreja Metodista, com a ascensão vulgarizada de uma cúpula sem brilhos, criou o cadinho ideal para Davi Barros exercer a sua complexada, amarga e, por isso mesmo, fascista visão de mundo: de grupo, fechada, temerosa, acovardada, frágil, mesquinha.

Quando o Colégio Piracicabano e a UNIMEP se organizam para um Fórum em defesa dessa mais do que secular cultura metodista, o mais lamentável não está nem em Davi Barros, nem no Colégio Episcopal, confessada e declaradamente medíocres e vulgares. O lastimável está nas lideranças políticas de Piracicaba que, por ignorância ou por vergonhosa covardia, silenciam. Há um patrimônio moral sendo dilapidado, um tesouro que Piracicaba ajudou, de forma vital, a construir na confiança e no respeito a uma igreja que, agora, naufraga nas próprias águas turvas que criou, entregando o leme a alguém mais fiel ao mercado do que ao templo. Resta, porém, a esperança de metodistas da velha e boa estirpe retomarem o comando do barco em frangalhos. Senão, a morte está anunciada, assassínio que a História não perdoará. Bom dia.

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