A vida em quadrinhos

QuadrinhosProcuro e não acho. Entro em sebos, saio deles, procuro até pela internet. E não consigo encontrar um, mísero que fosse, exemplar da revista O Tico Tico. Parece um complô: quem tem não entrega, não vende, não dá. É como se houvesse a certeza de O Tico Tico ter-se tornado um tesouro, jóia rara, não sei. Encontrar nem que seja um único exemplar vai-se-me tornando obsessão. Mais uma. Pois, conforme escoa o tempo, mais manias se adquire.

Conheci um velho homem sábio – filósofo, latinista, professor de grego – que andava pelas ruas catando coisas. As pessoas cumprimentavam-no com reverência. Nos bolsos, ele carregava pedrinhas, parafusos, pregos, papel de embrulhar balas. Era-me um dos prazeres da vida andar ao lado dele, bebendo cada palavra, cada observação, vendo-o vergar o corpo para recolher pequeninos objetos do chão. Certa vez, vi-o apanhar uma pena de passarinho. Antes que eu lhe perguntasse, o sábio homem me explicou: “Quando portas rangem, passa-se grafite nas dobradiças. Com pena de passarinho, fica mais fácil.” Aprendi. Mas nunca fiz.

Comecei, porém, a guardar coisas, a certeza de que irão desaparecer. Pois não me esqueço do susto de um dos meus netinhos ao ver, no canto da biblioteca, minha velha máquina de escrever. O menino não sabia do que se tratava, nunca imaginou houvesse algo anterior ao computador. E os capacetes dos revolucionários de 1932? Tenho um. E pertencia a um ilustre campineiro, da velha guarda e da boa estirpe: o advogado e, depois, padre Vicente Melilo. O filho dele – o bispo D.Aníger Melilo – foi quem mo deu. Tornou-se relíquia. E caneta, com pena de se molhar em tinteiro? Tenho, também. E coleções de revistas antigas: Fon Fon, Garota, gibis, para meus netos não pensarem ser mentira dos mais velhos a beleza dos heróis antigos. Só Tico Tico não tenho.

Ora, sei da quase absoluta desimportância, para a criançada de agora, das velhas revistas infantis, das histórias de antigamente, dos contos da carochinha. Nem os meus netos querem ouvi-las e eles sabem que tenho histórias sem fim para lhes contar. Preferem heróis cibernéticos, monstros de fuças escancaradas, aqueles bichos feios e esquisitos, ação, rapidez, agitação. Quase fui vaiado quando lhes propus contar histórias do Barba Azul, da Bela e a Fera, até mesmo da Cinderela ou da Bela Adormecida. Olharam-me como se eu fosse idiota. Acho que sou. Mas tenho uma outra certeza plena o mundo vai-se tornando cada vez mais desinteressante por falta de contadores de histórias de carochinha, de avós que as contem ao pé do fogão nem que seja o de microondas.

Histórias salvam vidas, purificam almas, alegram a existência. Crianças sem histórias tornam-se frascos vazios. Basta ver o milagre da Sheerazade, sobrevivendo ao sultão por contar mil-e-uma noites de histórias. E uma outra, do Quênia, onde a esposa do rei – toda rica e poderosa – definhava enquanto, num casebre ao lado, a mulher de um homem paupérrimo esbanjava alegria e saúde. O rei quis saber qual o segredo. O homem pobre contou: “Eu a alimento com a carne da língua.” Bobalhão, o sultão mandou comprar todas as línguas de boi, de carneiro, de passarinho. A mulher permaneceu infeliz. Então, o homem pobre explicou-se melhor: “A carne da língua” era o alimento da fala, as histórias que ele contava para a amada, os contos de fadas, as anedotas, os elogios. Contar histórias enriquece a alma de quem conta e de quem ouve. Contar histórias é impedir que desapareça a própria história humana.

E a história da língua do Sol? São os bascos que contam: era uma vez uma sereia que gostava de nadar apenas em águas iluminadas pelo Sol. Se houvesse sombra, ela se escondia. À luz e ao calor do Sol, a sereia se estirava nas águas, despreocupada da vida. Aconteceu o inevitável: de tanto vê-la, de tanto cobri-la, o Sol se apaixonou. E, querendo tê-la para sempre, estendeu uma língua de luz que, então se viu, era um arco colorido. Foi o mais belo arco-íris que existiu, exatamente por ter sido o primeiro. Numa manhã especial, a sereia e o Sol se amaram tanto e tanto, amaram-se com tal sofreguidão que sete lágrimas lhes caíram dos olhos, cada lágrima de uma cor. E, assim, o arco-íris passou a existir para sempre.

É essa minha saudade de O Tico-Tico, a beleza da vida contada em quadrinhos. Mas, pensando bem, para quê? Pois ainda sei histórias, muitas e muitas. Mas não tenho para quem as contar.

Publicada no Correio Popular em 22/10/2004

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