Ah! e ó, a Mãe Gentil!

Júlio Cesar

(Esta  crônica foi publicada, na 6ª.feira, 27/06, no Correio Popular, de Campinas. Permito-me – com uma que outra atualização – divulgá-la aqui, para meus irmãos piracicabanos. O terror e a semeadura de ódios também acontecem aqui. E, no entanto, o povo brasileiro – na paixão pelo futebol – revela a veneração pelo Brasil.)

Tenho certeza: amo este País desde quando abri os olhos para a vida. Foi num domingo de junho, em 1940. Posso garantir que, todo embrulhadinho em roupas aquecedoras, vi-me levado à Igreja Matriz para ser batizado. Bastava atravessar a rua de minha casa, onde nasci.

Numa época de medos, os pais batizavam os filhos logo que nasciam. Levado à igreja, sei que vi, pela primeira vez, o jardim de minha cidade. Entendi: o mundo era um jardim. Nada disso inventei, pois me está tatuado na alma. Nasci, pois, amando minha terra. Aprendi por mim mesmo: “Pátria amada, Brasil”.

Meus ancestrais são sírios, libaneses, gregos e turcos. Meu pai me contava histórias do Oriente, inventando-as como se iluminado por Sheerazade. Fantasiava que as ruas de Damasco eram capeadas com pedras de ouro. E que o cedro do Líbano rescendia seu perfume por toda a região, bastando aspirá-lo para se conhecer o paraíso. No entanto, ele, suspirando, me dizia: “Mas não há, meu filho, país algum como o Brasil”.

Até hoje, caem-me lágrimas pelo rosto ao ouvir o Hino Nacional. O Hino foi-me, desde a infância, como um cântico de espiritualidade cívica por assim dizer sagrada. Lembro-me até hoje de — aos meus tenros 6 anos de idade — ter ido comprar pastéis num boteco da esquina e, ao sair e mordendo um deles, ouvir os primeiros acordes do Hino Nacional na praça central. Paralisei-me por inteiro, levei a mãozinha ao peito, temeroso de andar um passo sequer. Era o Hino Nacional, tão sacrossanto quanto a hóstia que o padre elevava durante a missa.

Ora, não sei se há ou não destino. No entanto, acredito em transmissão, em herança. Talvez, o nosso único destino seja determinado pela genética, um destino biológico. Herdamos, pelos genes, o que nos transmitem os ancestrais, desde os pais. E, a essa herança — moldada pela cultura — estamos presos, seja para o bem ou para o mal. A vontade e a liberdade de cada um fazem-nos — em muitas circunstâncias — prisioneiros dessa herança. É também por isso que o passado nos acompanha.

Diante do empolgante espetáculo — que multidões apresentam nesta Copa do Mundo — mais do que me emocionar, sinto-me orgulhoso, encantado em minhas convicções, alimentado em meu desmedido amor por este País. As ruas, as praças, os estádios provam e comprovam que o povo brasileiro tem uma herança genética, herança vinda de nossas misteriosas e benfazejas raízes. Somos, o brasileiro, o povo gentil. E nada mais natural do que isso, porque nascido, gerado pela “mãe gentil”.

Está escrito em nosso destino genético. Em 1822, d. Pedro I — aceitemos tenha sido ele o autor — compôs o Hino da Independência. E nos anunciava: “Já podeis, da Pátria, filhos, ver contentes a MÃE GENTIL” (grifo meu). E, naquele mesmo 1822, nascia um outro canto — que o povo consagrou a ponto de transformá-lo em Hino Nacional — em que lançamos o “brado retumbante”: “…dos filhos deste solo, és MÃE GENTIL (grifo meu). Pátria amada, Brasil”.

Quando Sérgio Buarque de Hollanda — em seu monumental Raízes do Brasil — nos mostrou a “cordialidade” brasileira, revelando-nos o “homem cordial”, quase todos os estudiosos viram, nisso, uma das causas de nosso quase exílio diante do desenvolvimento de outros países. Éramos, pois, mais afetivos, mais emocionais, mais conduzidos pelo coração do que pela razão. O “homem cordial” é o que vive a partir do coração, “cor, cordis”. Mas que mal haveria nisso? Por que não admitirmos seja uma das mais belas virtudes que um povo pode ter diante de uma humanidade materializada?

Por cinco anos — nos 1980 — pus-me a conhecer o Brasil. Não mais ou apenas capitais, costas litorâneas. Mergulhei em grotões, em vilas, cidadezinhas de quase todos os estados brasileiros. E descobri um outro Brasil, mais verdadeiro, diferente daquele que eu imaginara, pela ótica de São Paulo. Entendi: São Paulo está no Brasil, mas não é Brasil. Somos um mundo diferente, cosmopolita, universal. Arrisco-me a dizer que São Paulo não tem raízes próprias, mas uma árvore imensa com galhos universais, multinacionais. Daí, o nosso pragmatismo, a nossa objetividade, até mesmo a frieza emocional. O Brasil é coração, este que tem pulsado, com alegria e vigor, em nossos quadrantes.

Somos filhos da “Mãe Gentil”. Herdeiros dela. E, por isso, o mundo — maravilhado — assiste à festa de amor, de solidariedade, de fraternidade, de convivência, de confraternização que a “brava gente brasileira” faz explodir nas ruas, numa fantástica festa multirracial, multinacional. O Brasil — filho da “MÃE GENTIL” — está promovendo a globalização do amor.

E, por favor — ó racionalistas! — permitam-me estar orgulhoso. E encantado.

(P.S. – Agradecido e comovido, ofereço estas linhas a Júlio César, o guardião de nossas alegrias.)

3 comentários

  1. Jairo Teixeira Mendes Abrahão em 29/06/2014 às 12:02

    Amigo Cecílio.
    Cumprimentá-lo já se tornou lugar comum! Este o motivo por não parabenizá-lo. Peço licença para beijá-lo ( Honi soit qui mal y pense! ) por essa tocante crônica! Aproximam -me de você nossas origens e mais ainda o amor pelo Brasil!
    Viva o Brasil! Viva Julio Cesar! Viva Neymar! Viva nossa Seleção!

    Jairo.

  2. Delza Frare Chamma em 29/06/2014 às 22:40

    Belíssima crônica Cecílio. Invejo não ter podido ser eu, tão pouco dotada para a “escrevinhação” poética, a fazê-la. Uno-me então a você na homenagem a esta nossa Copa das copas, ao goleiro Julio Cesar que emocionou a todo o Brasil, aos jogadores e turistas vindos de todas a parte de nosso planeta e se congraçando fraternalmente com nosso povo e, finalmente, a nós mesmos e a todos os brasileiros e brasileiras por estes momentos de fascinação que estamos tendo o privilégio de viver. E que viva a Copa das Copas Brasil 2014!!!!!!!!!!!!!!!

  3. wilhe gerdes em 30/06/2014 às 13:59

    Chover no molhado diante de suas crônicas, passou a ser fato redundante, diante da riquezas de detalhes e históricas emoções…. Quanto a César, dai à ele o que dele seja, até que um novo jogo venha, afinal, essa profissão de goleiro é ingrata… Vamos ver quando a exigência for maior!
    E já que o assunto é seleção, já fiz uma solicitação agendada de pré-emergência ao meu cardiologista, pois o nosso treinador tem insistido em errar na escalação e substituições nos jogos.
    É bom não abusar da sorte, pois chegamos SEM MÉRITOS!..
    Nas duas seleções de camisas amarelas que aí estão, vejo o Brasil jogar como a Colombia de antigamente e a Colombia como o Brasil dos velhos tempos.
    Será que alguém duvida disso?
    abraços
    wilhe gerdes

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