Ainda, animais e crianças

picture (50)É mais grave do que imaginamos a perda de senso crítico em grande parte de nossa gente. De repente, É como se o exercício da crítica e da vigilância tivesse perdido a importância. Ora, não há comunidade sem consciência crítica. Povo sem valores e sem diretrizes é apenas massa.

Confesso continuar perplexo, como alguém à margem da estrada vendo a manada passar. No estouro da boiada, até se pode saber de onde ela vem, mas nunca para onde vai. Assim, com o povo. No estouro do dia-dia-dia, no caos das correrias, poucos pensam, poucos refletem. E, por isso, o jornalista – que é obrigado a ver, a pensar, a refletir e até fazer o exercício de algumas previsões entre causa e efeito – é visto como um estranho. Pessoas superficiais, que lêem apenas manchetes de jornais – se as lêem – não querem entender ou simplesmente não têm capacidade de entendimento. Por isso, o jornalista e o intelectual são colocados ora como inimigos, como adversários, como oposição permanente. Isso, em Piracicaba, é pior ainda, pois se trata, agora, de um lugar sem qualquer oposição e cada vez menos com senso crítico. A opinião é absorvida como esses pratos feitos em balcões de self-service.

Piracicaba está envolta em silêncios e se esconde em sombras. Ora, onde houver sombras e silêncios, haverá, também e quase sempre, coisas ocultas. E estas, as coisas ocultas muitas vezes se ocultam para esconder a verdadeira face, a realidade sob a cereja do bolo. Já há alguns anos, a respeito das tais pessoas competentes mas espiritual e moralmente despreparadas, tentamos avisar sobre o perigo de se carregar o andar com santos de barro. Os antigos, gente do povo – mais sábios do que nós – sabiam a importância de não se deixar enganar com aparências, com exterioridades vistosas: “Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento.”

O desrespeito ao dever da crítica e à liberdade de pensamento beira o absoluto, fruto do “pensamento único”. Quando todos lêem as mesmas coisas ( se lêem), quando vêem as mesmas coisas, quando freqüentam os mesmos lugares e se alimentam dos mesmos pratos feitos, o simples pensar com lucidez causa estranhezas ou gera diferenças. Criaram-se temas e assuntos que se tornaram tabus: consciência negra, críticas a Israel, homossexualismo, proteção aos animais. Estabeleceram-se regras e não se pode ter opiniões em contrário.

A população de animais domésticos, de bichos de estimação cresce assustadoramente. E, nas ruas, aumenta, também, a população de crianças e de velhos abandonados. Nos jornais, qualquer referência mais inteligente e racional a respeito de animais é tratada com hostilidade, defesas absolutas, intransigentes e pétreas dos bichos. Gostar da natureza, de animais e plantas, dos seres vivos, isso é virtude e dom dos humanos. Mas perde a importância se, nessa relação, houver a indiferença ou o menosprezo em relação ao próprio ser humano. Algo estará desequilibrado, como se tivéssemos invertido a pirâmide de valores.

Proteção e defesa dos animais, sim. Mas que, antes, essa sensibilidade exacerbada se manifeste, também, em relação a humanos que sofrem violências piores, desprotegidos. Ou não é verdade que muitos cães são melhor tratados e mais bem cuidados do que a multidão de crianças de favelas, da periferia, de pais desempregados? Qual a prioridade, em sociedades sérias: cães ou crianças?Bom dia.

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