Amantes e morte

AmantesNos últimos tempos, avolumam-se notícias e informações de mortes e crimes entre amantes, o que falsamente chamam de tragédias de amor. E, miseravelmente, descobre-se como tudo se tornou banal, corriqueiro. Uma briga à toa aqui, um desencontro lá, um filho indesejado, a maldade pura e simples, e eis que pessoas matam, matam-se. Jornais noticiam o acontecimento, dando ênfase maior conforme a popularidade dos personagens, como é o caso sórdido do ex-goleiro Bruno. São tragédias comentadas por alguns dias, enquanto houver leitores de jornais dispostos a lê-las ou enquanto a audiência de televisão for mantida como capítulos de novela. Em seguida, a vida continua como se nada houvesse ocorrido nem para um casal de amantes e nem, também, para o amor. Matar tornou-se questão banal. E matar por amor, também. Tanto assim que ninguém comentou, ninguém discutiu, ninguém – pelo menos nas páginas de jornais ou em debates pela tevê – deu de seu tempo para, ainda outra vez, refletir sobre a questão que atravessa os séculos: amar e matar.

Ora, longe estou de querer dar palpite sobre isso. O que me estranha é o silêncio diante de amantes que se matam, diante de tragédias que se repetem em nome do amor e que se vão tornando questões cada vez mais banais, corriqueiras, assunto, apenas, de páginas policiais. E a questão é grave Especialmente porque, em vez de dizer respeito preferencialmente aos amantes, diz respeito ao amor. Eis aí, parece-me, a grande reflexão que precisaríamos fazer agudamente: o que é o amor? Em quê se transformou o amor? Se conseguirmos encontrar uma resposta, talvez encontremos, também, explicações para essas tragédias de amantes em nome do amor.

Alguém dirá que todo amor é trágico. E o será, dependendo do que se entender por tragédia. Pois tragédia não é algo que sempre termine mal. O amor é trágico por seu conteúdo e pelos personagens que o vivem, não pelo fim, pelo desfecho. Muitas vezes, aquilo que pretende revelar-se trágico não passa de apenas cômico. Casais que se matam por ciúmes tolos, por briguinhas fúteis; casais que se agridem com violências sem fim por motivos simplórios – há uma tragédia nas relações, mas uma simples comédia no final. São finais, no máximo, tragicômicos. Até morrer e matar por amor pode ser tragicômico.

Não sei, quase nada mais sei. Mas me parece que – para navegar nos mistérios do amor – teria mais sentido morrer pelo outro do que matar o outro ou morrer por causa do outro. Esses crimes repetidos, cada vez mais banais, cometidos em nome de uma relação amorosa mostram, em meu pobre entender, como tudo se amesquinhou em tempos que se tornaram apenas materialistas, de valores passageiros, descartáveis, usáveis enquanto interessam. Até o amor passou a ser objeto de comércio entre as pessoas. Aliás, não está havendo novidade alguma pois houve, desde tempos imemoriais, esse comércio, esse negócio. A exceção foi o amor verdadeiro que construiu o que de melhor a humanidade teve em sua existência. Mas este parece estar esquecido. Pois o amor, como negócio, parece estar sendo a forma preferencial de relação entre as pessoas, um simples contrato. Que se rompe quando surge a primeira grande dificuldade. Ou que dá motivo para matar. Não deu certo? Mate-se, então, o outro. O problema é saber matar, cometer o crime perfeito. De qualquer maneira, dá notícia para jornais e televisão, os 15 minutos de fama que, mesmo sendo inglórios, tantos ainda buscam. Bom dia.

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