Ameaçado por um beija-flor

picture (42)Certa vez, saindo de meu recolhimento, um ônibus me atingiu na traseira do carro. Ao solavanco, pensei no beija flor que me tentou agredir. E descobri: prefiro ser agredido por um beija flor do que por um ônibus. A diferença é incrível.

No silêncio de meus espaços vazios, surgiu uma pousada de beija-flores. Quando eles aparecem, acaricio-os com os olhos e acredito em Deus. Cheguei a ver o que nunca imaginara presenciar: colibris em revoada, eles que voejam solitariamente. Vi-os em bandos. Apenas uma única vez, mas vi. Eram azuis, quase violetas, talvez esverdeados de esmeraldas. Espanto-me com essa beleza hipnótica, a delicadeza que fascina. Deus, ao inventar o beija-flor, estava enamorado de amor humano.

Na família, tivemos uma cozinheira – adorável mulher gorda e negra, de risada mais gorda ainda – que falava a linguagem dos anjos. Certa vez, nunca me esqueço disso, vi-a molhando as lajotas do jardim, numa tarde de calor intenso, de mormaço sufocante. Ao ver-me observando-a, a mulher explicou: “É para os passarinhos não queimarem os pezinhos ciscando o chão.” Mas salientou: “Para pica-flor não precisa. Pica-flor fica no ar, não pisa no chão.” Beija-flores, ora Clarinda os chamava de pica-flores, de chupa-flores, ora chamava um que outro até de chupa-mel. Ela entendia o amor humano de Deus.

Tive, há alguns meses, pressentimentos estranhos com um beija-flor. Aconteceu-me três dias seguidos, quase que no mesmo horário daquelas manhãs de Primavera. Meu canto de escrever é quase um sótão, no alto da casa, onde digo ser o campanário de mosteiro pessoal. O espaço, em manhãs claras, fica azulado. E, então, o beija-flor apareceu naquelas alturas. Ficou suspenso no ar, tive certeza de que me olhou, olhos pequenos mas penetrantes. Logo em seguida, sumiu. Na manhã seguinte, retornou, o mesmo olhar, a mesma levitação. A estranheza do dia anterior se tornou má impressão quando da segunda vez. E pressentimentos estranhos, quando ele apareceu na terceira manhã. Veio, espiou, foi-se embora. Nada aconteceu. Mas deixou lembranças.

No entanto, houve a tentativa de agressão. Na varanda, numa samambaia esparramada e caída do alto do telhado, vi o movimento da avezinha. Ela ia, voltava, tornava a vir. Aproximei-me e um outro beija-flor surgiu não sei de onde, voando ao redor de mim, rodando, afastando-se, como se me chamasse para fora. Na samambaia, havia um ninho de beija-flor e a fêmea chocava. O macho tentava afastar-me, ameaçando-me com o bico, querendo assustar-me com os olhos espantados, tratando-me como invasor. Afastei-me, entendendo que também eu jamais aceitaria a presença de estranhos se minha mulher estivesse preparando o ninho para os filhos.

Não entendi, pois, quando o ônibus, com velocidade estúpida e agressividade sem sentido, nos atingiu, a violência gratuita ainda que acidental. Ora, se eu sobrevivera ao ataque de um beija-flor, como um mísero ônibus, criação humana, ousara fazer-me mal? Viver é muito perigoso, sei disso, concordo com Riobaldo, pois vivo em meu grande sertão e encontrei veredas. Mas, se há perigos que fascinam e atraem e seduzem, outros existem que apenas agridem pela gratuidade sem sentido. Morrer de picada de beija flor é uma bênção; atropelado por um ônibus, uma estupidez. Se o beija flor me agredisse, eu teria sido beijado por ele, confundido como flor, chupado como mel?

E se forem assim tão simples os amores humanos de Deus? Bom dia.

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