Amor demais, amor de menos

O texto foi publicado em O Diário em 14 de setembro de 1979. E depois selecionado para o livro Bom Dia – Crônicas de Autoexílio e Prisão, lançado em 2014.

Conheci um homem estranho. Tentei colocar-me em seu lugar, mas não consegui. Talvez, poucos conseguissem. O homem, que eu conheci, pareceu-me insensível acima dos limites. Insensível à alma humana.

Sei estar avaliando-o através de meus próprios valores. Quem, no entanto, é capaz de avaliar o próximo senão a partir de si mesmo? O que valida os julgamentos é sua própria subjetividade. Lembro-me de que, uma vez, horrorizei-me diante de uma velha mulher – como se estivesse, diante de um monstro — quando ela me disse detestar flores, música e criança. Se, para mim, a flor, a música e a criança são algumas das mais perceptíveis impressões digitais e sonoras de Deus, como poderia eu deixar de horrorizar-me diante de uma mulher que as detestava?

Avaliações são, pois, parciais e humanas em sua fragilidade. Os condicionamentos existem em tal monta que não há ser humano isento. Fui incapaz de ficar neutro, ou mesmo tentar compreender, diante do homem que conheci. É, no mínimo, um ser estranho. Pelo menos, para mim. Tem dois filhos. Apenas dois. E deu-os para os avós, para que criassem e educassem. Vive junto com a esposa, mas distante dos filhos. Pais na capital, filhos no interior. Veem-se apenas uma vez por mês e, ainda assim, quando é possível.

Uma situação que perdura por 10 anos. E o que me abismou e aterrou foi saber que não sentem falta dos filhos. Nem saudade. Pelo contrário, consideram-se felizes, realizados, como se a ausência e a distância fossem meras abstrações. Nem mesmo razão de sobrevivência tem aquele casal para justificar o afastamento. Simplesmente, chegaram a um acordo, ao entendimento de que, para eles e para os filhos, seria melhor viverem separados.

Espantaram-me porque eu sei o que sofro, a saudade que sinto ficando apenas três ou quatro dias distante dos meus. Mata-me, sufoca-me, agonia-me. É o único pedregulho que penetrou no casco de meu pangaré. Tenho vivido feliz e intensamente. Só me dói e me martiriza a ausência dos meus. As noites são terrivelmente vazias. Longe dos que eu adoro. E conto, dia a dia, o tempo que falta para eles se juntarem, em definitivo, a mim, para vê-los chegando para sempre. (NA – Naquele ano, o cronista estava mudando-se em definitivo para São Paulo. Fatos posteriores impediram-no). Como posso compreender – eu, que tenho Controlado até mesmo as horas — que um homem se sinta feliz, por escolha própria, estando separado, há 10 anos, e por uma distância absurda, dos próprios filhos? Ou aquele homem estranho é um monstro ou meu coração lateja demais de amor. Bom dia.

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