Amor, jornalistas e outros vexames

picture (53)Sempre acreditei que, quanto a inconveniências, criança e jornalista têm muito em comum. E também em perguntas tolas. Quando se diz que “criança tem cada uma”,dever-se-ia o mesmo dizer de jornalista.

Certa vez, um jovem repórter de televisão, olhos brilhantes, quase lúbricos me perguntou com excitação evidente: “E o amor, o que é?” Até contei sobre isso, pergunta que fez a vida rodar-me, em pensamento, como um filme projetado do fim para o começo. Lembrei-me de vexames meus, de perguntas estapafúrdias que também fiz, mesmo quando as redações de jornais inventaram uma desculpa esfarrapada em defesa dos jornalistas: “Não há perguntas tolas. Há respostas tolas.” Não é verdade. Há perguntas também absolutamente idiotas. E quantas!

Para os próximos 70 anos, outro dos meus acalentados projetos de vida é o de escrever a respeito de vexames jornalísticos, de besteiras não publicadas, das tolices cometidas. A primeira das minhas grandes vergonhas eu a tive aos meus 17 anos, início de carreira e já como repórter. O Sebastião Ferraz, então dono e diretor do “Diário de Piracicaba”, me designou para cobrir um concurso de música nos salões do Ítalo-Brasileiro. Fui, ainda atordoado das serestas da madrugada anterior, de encontros amorosos suspirantes.

Em ressaca amorosa, lá fiquei ouvindo pianistas, violinistas e uma velha senhora que, soprano, cantava de forma esganiçada para o meu gosto. Parecia uivar, a heróica senhora. No intervalo, aproximei-me de pessoas que ouviam explanações do grande e genial maestro Benedito Dutra Teixeira. Teatral e com a cabeleira branca esvoaçando, o Maestro Dutra falava, referindo-se à velha dama do canto, a de voz que achei esganiçada: “É o canto do cisne, é o canto do cisne…” Metido a besta, perguntei ao grande Dutra: “Esse canto do cisne aí da dona é o do Tchaikovsky, é?”

A cabeleira do maestro voou e seus penetrantes olhos de Dutra fulminaram-me. Percebi quão idiota eu fora, pensei fosse, ele, agredir-me com a batuta: “O de Tchaikovsky é ´Lago dos Cisnes`. O dessa senhora, é o canto do cisne, o último suspiro.” Então, aprendi: ao cantar, o cisne anuncia sua própria morte. Como aquela cantora que me parecia um galo garnizé.

Besteiras de jornalistas há muitas. Algumas delas são clássicas. Como a de um conhecido repórter da televisão brasileira, que começou comigo no “Diário”. Ia inaugurar-se um novo templo da Loja Maçônica. Pedi ao rapaz fosse entrevistar o grande chefe maçom. E ele foi. Chegou ao local, pediu: “Quero falar com o gerente dessa loja.” Compassivo, o Grão Mestre o atendeu. E o jornalista fez a sua primeira e histórica pergunta: “Qual é o produto que essa Loja Maçônica vende, hein?”

Pois bem. E retornando ao caso lá de cima. O repórter de televisão, deliciando-se por antecipação, quase babando, gemeu: “O que é o amor?” Fingi não ter entendido. Ele insistiu: “O que é o amor?” E vou lá saber, eu, o que é o amor? Se soubesse, eu amaria mais e sempre, ou não amaria nunca. A vida toda quase outra coisa não fiz senão amar daqui, amar de lá, desamar, voltar a amar, no caos do amor que acaba, de amor recomeçando, pois amor complica, amor inferniza, amor plenifica, amor mata, amor alegra, amor dói – como definir esse raio de coisa complicada?

Só mesmo jornalista para perguntar o que é o amor. Perguntou, complicou. Amar, ama-se sem pensar. Pensou, estragou. E bom dia.

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