Amor, sexo e fasto food

Fast FoodOra, sou caminhante de uma já longa jornada por estradas as mais diversas. Conheci caminhos largos e planos, luminosos e limpos. Mas, também, andei por trilhas estreitas e sinuosas, sombrias e feias. Mesmo assim, ainda me espanto, estranhando coisas. Por isso mesmo, aumentam-me os receios diante do que fazem veículos de comunicação, impressos e eletrônicos, diante de questões fundamentais da vida humana, especialmente as que dizem respeito a estômago e sexo. Há uma poluição de informações atordoantes que, se espremidas, não têm substância. Delas, sobram apenas bagaços do nada e da esperteza.

Na comida e no sexo, há o convite ao empanturramento, à glutonaria, à comilança pela comilança. Na cozinha, propõe-se a rapidez e a quantidade, em prejuízo do convívio e da qualidade. E isso se repete em relação ao sexo, na confusão que nivela a banalidade do genitalismo e do sexismo à maravilhosa complexidade da sexualidade humana. A relação homem e mulher é um universo feito de mistérios e de individuações que impede regras gerais. É processo a dois, interminável. Como no fogão, a cama tem temperos e cuidados para a comida não desandar. Fogão e cama são templos da vida humana que podem, porém, se transformar em presídios. O fast food da mesa será o fast food da cama.

O ser humano não come apenas para se alimentar, mas, também, por prazer, saboreando. E o sexo não apenas destina-se à reprodução, mas também ao prazer. Hoje, parece ter-se tornado vulgar o amante dizer à pessoa amada que quer comê-la. Mas é essa a verdadeira expressão: comer o outro, como desejo, como intensidade do amor, expressão da paixão. Cristo deu seu corpo como vida: “Tomai e comei, isto é meu corpo.” A mulher e o homem, quando realmente se amam, dão de seus corpos um para o outro, como que em busca de uma unidade, a plenitude do “dois em um”, comunhão plena.

Da comida, o ser humano fez, além de alimento vital, fonte de prazer e de delícias, numa construção de refinamento. Assim, também, foi com o sexo. De conjunção de homem e mulher para a perpetuação da espécie, para a geração de filhos, o sexo humano se tornou, também, uma composição de beleza na arte de amar. Não mais simples genitalismo, sexismo ou instinto de procriação, mas uma construção de amor e beleza que forma a sexualidade como um todo. Quando se amam sem procriar filhos, homem e mulher estão, na verdade, procriando-se a si mesmos, reconstruindo-se, renascendo. A comida tem deixado, para muitos, de ser delícia a ser saboreada para se tornar quase tão só o alimento rápido e apressado, o que “mata a fome”. Inevitavelmente, o prazer sexual tornou-se, também, rápido, apressado, guloso. Não se saboreia, engole-se. Na cama, engole-se o outro como se come nas ruas, apressada, rápida e utilitariamente. Sem cuidados, a cama passou a ter semelhanças dramáticas com restaurantes por quilo, cama de fast-foods. Por isso, quando vejo pessoas comendo apressada e rapidamente em qualquer pegue-pague — engolindo sem mastigar, inquietos e sem saborear — imagino-as na cama, no amor, na intimidade a dois. E me lamento. Pois amar é saborear, como fazem os gourmets, não os gourmands que engolem e se saciam. O amor entre homem e mulher é banquete, corpos que se oferecem um ao outro em oferenda e em comunhão. Momento eucarístico na vida de um casal. E, por isso, o amor casual, rápido, desconhecido, anônimo sabe a fast-food.

Uma revista tentou mostrar que mulher não se conhece a si mesma, não sabe o que deseja. Mas isso é milenar. Pois mulher é tesouro escondido, oculto. Ela pode não saber, mas intui, percebe, deseja. E espera. Quando não lhe é revelado, ressente-se, murcha, definha. Homem é garimpeiro tateando a joia rara escondida, a pepita oculta. Michelangelo entendeu o mistério ao enxergar a imagem desejada através do mármore bruto. Ele via a figura dentro da pedra. O homem tem que ser esse artista, vendo o tesouro feminino oculto na mulher, ver através dela e não nela. Desde que a mulher permita.

A palavra é capricho. Há que se caprichar na cozinha, no amor. O arroz com feijão do cotidiano é delicioso se bem feito. Banquetes, iguarias, festas, estes não fazem parte do cotidiano. Mas, quando realizados a dois, a receita é a mesma: capricho.

Há analogias que parecem eternas. A mulher é um violino; o homem, o violinista. Se não for tocado, o violino permanece mudo. Se mal tocado, emite sons desafinados e ruins. Mas, nas mãos do bom instrumentista, o violino emite música dos céus, sons dos anjos, sinfonias inebriantes. Mulheres há, porém, que insistem em ser trator. E nem todo homem quer ser tratorista.

*Publicada originalmente no Correio Popular em 6/2/2009

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