Amor, tempo e vento

pictureEscolhi conviver com o tempo. O espaço de cada um é aquilo que se escolhe. Ou, sem a possibilidade da escolha, a prisão. O tempo, no entanto, está na minha carne, independe de mim, não posso escolhê-lo. Sou, pois, um beneficiário ou vítima dele. Na infância de minha solidão, senti-me uma simples vítima: cabelos embranquecendo e, na pele das mãos, indícios de pergaminho. Mas, quando a solidão chegou à adolescência e à maturidade, admiti a outra possibilidade: o tempo me enriquecera, mesmo que eu percebesse. Cãs, mãos de pergaminho, varizes são marcas de caminhadas. O tempo, antes de um castigo, pode ser um prêmio. Na solidão, pode-se pensar nisso. O tempo não foi minha prisão. Tenho a pretensão de estar aprendendo a aprender com ele.

Há magias de que nos afastamos, por tolice ou por medo. Sonhamos com viver contos de fadas, mas dizemos não acreditar nelas. Sonhamos sem acreditar. Pensando e pensando, nesse meu mais fundo da solidão, fico buscando entender a magia das palavras. O que são erros, o que são equívocos? Pensar nisso, talvez seja encontrar explicações. Errei ou equivoquei-me? O tempo me ensina haver diferenças essenciais entre equívoco e erro. O erro é uma escolha: eu sempre erro ao fazer a opção que minha consciência repele. O equívoco, no entanto, é mais sutil: acredito numa verdade, mas ela não é verdadeira. Na boa fé, o equívoco me induz ao erro. Erro é má fé; equívoco é a boa fé complicada.

O amor é feito de magia. Mas, também, de erros e de equívocos. Nesta minha solidão de espectador culpado, fico refletindo sobre amores vividos, amores que se vivem. Angustio-me. O tempo parece igual ao vento: não se sabe de onde vêm, para onde vão. Tempo e vento existem, deixam marcas, ensinam, cada qual à sua maneira. E não aprendemos. O amor é a mais verdadeira realidade da vida. O tempo anuncia o amor; o vento espalha-o. Há anúncios e esbanjamentos de amor em todos os espaços, um cio universal. Neste início de século, estamos amando erradamente, querendo vencer o tempo, amando na velocidade do vento. E, antes desse amor errado, vivemos o amor equivocado. Deste, nasce aquele.

Amar, para a minha geração, era um destino, não uma escolha ou um privilégio. O amor tinha idade, tinha um tempo. Ou era um vento de Primavera, espalhando pólen. O amor era hormonal ou um destino. Encontrar alguém, casar, ter filhos, formar família, dando, a isso tudo, nome de casa ou lar – esse o destino. Não era um erro, mas, quase sempre, um equívoco. O amor hormonal morre. Minha geração é a de homens e mulheres de amores desfalecidos, mantidos num formol de conveniências ou de covardias. Há hormônios demais nas pessoas de 20 anos para que elas possam entender de solidariedade. O amor, no entanto, é compassivo, solidário. Mais do que conquista, amar é perda. O amor, como a vida, são apenas perdas.

Neste início de século, no entanto, o erro parece dominar as pessoas. Amar não é mais um destino, mas uma escolha. E a escolha tem sido pelo não-compromisso, pelo vencer, pelo usar. Escolhe-se o vento que passa. Foge-se do tempo, que é e que marca. O vento é volúvel, caótico. O tempo, porém, é paciencioso, harmônico.

O amor nada tem a ver com o vento: tem a dimensão do tempo. Mas viver é, mesmo, uma experiência pessoal. Não haverá, no entanto, qualquer descoberta se não houver solidão. Hoje, porém, há ruídos demais. O vento sopra muito forte. E oculta o tempo, que ensina. Sinto ser triste, todo esse amor errado. O vento sempre engana. Bom dia.

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