Andar de bonde e chegar à Lua

bonde Piracicaba – 1

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Esse texto foi publicado em 21 de julho de 1979 em O Diário. E depois selecionado para o livro Bom Dia: Crônicas de Autoexílio e Prisão, lançado em 2014

Recentemente ainda, as ruas piracicabanas estavam marcadas pelos trilhos dos bondes. E, no entanto, praticamente toda uma geração nem sequer chegou a vê-los. Os homens que os desativaram – sem qualquer razão plausível – nunca se incomodaram com o erro cometido. Agora, até os grandes urbanistas se lamentam pela extinção dos bondes, no equívoco histórico de ter-se procurado poupar a energia elétrica e não se ter previsto a crise petrolífera que sacode o mundo.

Estão vivos ainda alguns dos motorneiros que conduziam os velhos, pacatos, lentos e românticos bondes piracicabanos. Por que os repórteres não os entrevistam? São homens que, percorrendo sempre os mesmos trilhos, acompanharam grande parte da história de Piracicaba. Pois, conduzindo os homens, os coletivos conduzem também a História. E histórias! Os progressistas – que devem estar com um sorriso zombeteiro – talvez não saibam que os bondes morreram por exigência da indústria automobilística. Não me venham com a surrada conversa da Light e da Bond & Share, que os bondes já haviam sido nacionalizados há muito tempo. E que estupidez maior, hoje em dia, do que o nacionalismo exacerbado, num mundo internacionalizado, dividido, repartido entre as potências? Bem, esse é outro assunto…

O que interessa são os bondes. Que fazem falta. Que foram os mais democráticos e utilitários de todos os transportes coletivos. Deles, utilizavam-se o patrão e o empregado, a patroa e a doméstica, o professor e o estudante. A mesma chuva que batia nas pernas da madame molhava também as pernas da operária da fábrica de tecidos. O mesmo vento que desmanchava o coque da professora austera agitava também as franjas da normalista de olhos assanhados. É uma pena, mas se roubou, aos garotos de hoje, a grande aventura de subir no estribo e esperar o cobrador para enganá-lo. Tomar o bonde andando, descer do bonde correndo, paquerar no bonde…

Havia – e penso nisso agora – uma sensação de liberdade que não existe em nenhum dos carrões que correm em nossas pistas, por possantes que sejam. Eram o vento no rosto, o cheiro da noite enchendo os pulmões. De quando em quando, paravam por falta de energia. Mas todos esperavam, ninguém tinha pressa. Podia-se conversar na calçada com as mulheres que fofocavam com o farmacêutico que sabia de todas as coisas.

Não, gente jovem, não torçam o nariz sentido o cheiro de saudosismo nessas coisas. Quase todos vocês, jovens de hoje, são, em parte, filhos dos bondes. Pois era neles que se paquerava (flertar era o termo!). E muitas mamãezinhas de hoje, e até vovós, iniciaram seus namoros tomando sorvete no velho bonde da Agronomia, o mais famoso de todos. Tudo diante dos olhos cúmplices do motorneiros e cobradores, que eram íntimos como se fossem da família. Geração feliz, a que viu o bonde deslizar mansamente e também o homem chegar à Lua. Tomara que possamos ver, novamente, o ser humano sorrir. E bom dia.

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