Ansiedade de perda

Biblioteca eletrônicaHá cerca de dois anos, um amigo me mostrou o “kindle” que havia comprado nos Estados Unidos, a chamada biblioteca eletrônica. Era um aparelhinho, do tamanho de um livro, que conseguia armazenar centenas e centenas de textos. Podia-se, com o “kindle” – leve, com páginas bem legíveis, páginas que viravam a um simples toque – carregar, no bolso, até 1.500 livros. Tremi. E temi.

Lembro-me de ter começado a minha biblioteca particular aos 12 anos de idade. Eu já lia muito, até sob a luz de velas, algo compulsivo, uma atração que chegara até mesmo a preocupar meus pais. No entanto, eles me estimulavam, dando-me livros, revistas, jornais para ler. Acompanhei, sentado nos joelhos de meu pai, a leitura, por jornal, de toda a Guerra da Coréia. Lia contos de fadas, gibis, mitologia e não me esqueço de um Natal em que pedi a Papai Noel – nos meus ingênuos seis anos de idade – um livro de capa dura que estava na vitrina da livraria de Seo João, na rua São José, ao lado de minha casa. Seu João – a quem chamávamos de Gato Louco – prometeu que falaria com Papai Noel para dar-me o livro. E falou. Só que meu pai, fingindo ser Papai Noel, me deixou ao pé da cama um outro livro, pois o Gato Louco entendera errado. Foi como se me tivessem apunhalado o coração.

No meu aniversário de 12 anos, ganhei o livro com o qual comecei a minha coleção. Era “Helena”, de Machado de Assis. E quem mo deu, foi meu amiguinho Sérgio Grisolia, por sugestão de dona Filomena, sua mãe. Guardei-o como jóia preciosa, lendo-o e relendo-o. E assim começou a minha vida de bibliófilo, tornando-me um rato de bibliotecas públicas e de sebos. A paixão continua e, por isso, a sensação de tristeza, a antevisão de perda, o sentimento de que tudo está ruindo.

Quando construí meu cantinho de morar, o engenheiro ficou exasperado com o espaço que eu exigia para abrigar a biblioteca. Ele olhava a montanha de livros, rabiscava gráficos e números no papel, fazia cálculos, pois a biblioteca ficaria no andar superior da casa. Então, ele me deu a solução: “Olha, aqui. Não é mais fácil você doar ou jogar fora os livros que já leu? Por que e para quê guardar, se já leu?” E sugeria que, se fosse para ampliar a área de construção, eu encomendasse uma grande banheira dupla de hidromassagem… Resisti. E o espaço dos meus livros foi mantido.

E eles, os livros, se transformaram num problema de minha vida. Pois não sei ficar longe deles. Posso escrever a mão, rabiscar em folhas de papel, em mesa de bar, sob uma árvore na praia, no teclado de um notebook, mas a escrita final tem que ser no meu cantinho, ao lado da biblioteca. É onde me sinto seguro, olhando as lombadas dos livros, mexendo neles, acarinhando-os, tomando-os nas mãos, cercado de meus dicionários em busca da palavra que me escapou. Neles, estão meus fantasmas, meus amigos, meus conselheiros, minha proteção, meu aconchego.

Agora, porém, começo a ficar agoniado. O “kindle” me abalou convicções. E eu sinto o meu mundo indo-se embora, ruindo devagarinho. Guardo, num canto da biblioteca, duas máquinas de escrever, uma Olivetti, outra Remington. Velhas, idosas, companheiras de toda uma vida. A Olivetti eu a ganhei de meu pai quando completei 14 anos. Nela, escrevi os meus primeiros romances, dedilhando madrugada afora. E o golpe mortal me aconteceu, há uns quatro anos, quando tentei voltar a escrever nela e meus dedos não conseguiram se harmonizar com o teclado. Senti-me traidor: como eu pudera não mais saber escrever na máquina, se ela e eu tínhamos sido, por mais de 40 anos, dois numa só carne?

Vejo minha biblioteca, passo os dedos nos livros, percebo a bagunça em que se está transformando, suspiro diante de obras antigas que recolhi por aí, aliso o Magnum Lexum, dicionário latim-português de 1837, uma sufocação me prende a garganta. Se o “kindle” pode armazenar milhares de livros, se se pode carregá-los no bolso da calça, levá-los para onde se for – o que será de minha biblioteca, de meus livros preciosos, de uma garimpagem feita a vida toda? Que filho, que neto, que bisneto haverá de querê-la?

É uma ansiedade de perda, a certeza de que um mundo está terminando, o meu mundo. Sei que não saberei viver longe de meus livros. Mas, no mais fundo de mim, sei que – quando o livro eletrônico estiver mais solidificado no Brasil – irei comprar o meu “kindle”. E isso me traz um sentimento de traição, de infidelidade que me está sendo difícil carregar. Por enquanto, fico com meus livros, como quem lambe suas crias. Mas até quando? Bom dia.

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