Ao final, risos

picture (42)O recado era breve, quase seco: “você anda bem-humorado!” Percebi a ironia. Mas continuo fingindo não entender. Há alegrias tristes. Basta lembrar daquela amarga música de Carnaval: “quanto riso, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão…” O palhaço ri, riem-se os palhaços. Não importa se com os corações despedaçados. Rir é preciso. O espetáculo tem que continuar.

Alguém me falou de humor cínico. Quem me dera! Pois foram eles, os cínicos, os que se encantaram com a simplicidade da vida despojada. Andar por aí, como cão vira-lata, contentando-se com sobras, sem desejos ou realizando-os descaradamente, rindo-se das convenções, das regras – eis o ideal cínico. O cínico será feliz se anular desejos e vontades. Quem o consegue? Ora – ao rir-me, ao rir –não escarneço de nada, nem de mim. O cinismo é difícil.

Nada mais resta, a quem muito caminhou, senão rir. E não é riso de quem ri para não chorar. É o que sobrou de quem chorou tudo. É um riso de aparvalhamento diante da absurdidade da vida. Há céus porque, ao mesmo tempo, existem infernos. Há deuses por, ao lado deles, existirem demônios. Felicidade, não sendo plenitude de algo, acaba sendo ausência do ruim. Ser feliz, portanto, é aceitar a própria carência. Se não dói, já está bom. Bom demais.

Ao final, sobra o riso da impotência. Ri-se da impossibilidade. Pois se descobre, ao longo da vida, ser uma simples invenção – como história da carochinha, como lenda, como religiões e utopias – a plenitude da felicidade humana. Ela não existe. Felicidade são momentos, chispas, instantes, relâmpagos. E será sábio aquele que, tendo-os, souber, pelo menos, viver da lembrança deles. Felicidade plena é promessa da utopia, daqui e do eterno. Promessas, todos podem fazê-las. E vida eterna não há como imaginá-la. O ser humano sonha e pensa com o corpo. E o corpo é finito. Tem rins, coração, estômago, sexo. Alma são hipóteses, crença, esperança.

Quando ri, o riso do escrevinhador é o de quem tem o coração despedaçado e nada mais pode fazer. O coração despedaça-se na longa caminhada. Insisto, insistirei: a vida são perdas, perdas e danos. Quanto mais se consegue, quanto mais se têm, quanto mais se recebe – mais se perde. E é essa a tragédia. Ter é perder. Portanto, ganhar seria não ter. Isso contraria o agora. Mas os cínicos – filósofos-cães, como deles se dizia – buscavam matar o desejo, bloquear vontades, despojarem-se delas. Mas, sem desejo, o homem não sonha. E, sem sonhos, o homem é nada. A solução do mistério talvez esteja em apenas sonhar, em viver o sonho por um único instante – e não querer mais.

Fala-se que o homem é o sonho de Deus. E que Deus é o sonho dos homens. O contar histórias, o riso, o humor, isso é uma tristeza imensa, coração despedaçado. E uma rendição, a do cansaço diante de tantas perdas, de sonhos que se foram, da carne roubada pela morte de tanta gente querida. Cansado, Ulisses voltou para casa, enfim surdo ao canto das sereias, a fascínios e embriaguezes. Agarrado ao mastro, sobreviveu. Cada homem tem o seu momento de Ulisses. E será feliz se tiver Penélope à espera, leal, tecendo a lã.

Viver é render-se. E, então, apenas contemplar. De mãos dadas, olhando a tarde chegar, vendo a noite cair, termina a história de mares encapelados, começa a serenidade do nada mais poder fazer. É triste o riso de perdas tantas. Mas, no crepúsculo de tudo, são risos de dois. Como começou, tudo também termina: um homem e uma mulher. Bom dia.

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