Apenas Dona Nelly

picture (83)Confesso não saber por onde começar esta crônica, tal o misto de angústia e de desconsolo. Sinto, com amargura, que Piracicaba está se suicidando como cidade ou, então, permitindo seja atropelada, descaracterizada, ferida em sua identidade. Povo sem memória é povo em extinção. E é esse o meu receio em relação aos piracicabanos, apesar de alguns esforços para que nossa história não seja atirada à lata do lixo como já atiraram, alguns políticos, nossos valores morais e espirituais.

Sofremos, em todos os níveis, de uma dramática e estéril transição, de uma passagem catastrófica pela falta de referência e de transmissão de valores e princípios. Ora, nenhuma família sobrevive sem a sua tradição, no sentido mais verdadeiro e nobre da palavra, a traditio: entrega, transmissão. A vida é como uma corrida de revezamento onde os corredores da frente entregam o bastão aos que vêm atrás. Isso é tradição: a entrega. Com cidades, acontece o mesmo. Piracicaba não está tendo revezamento, mas um atropelamento movido por ambições nem sempre legítimas e por interesses também nem sempre dignos. Estamos presenciando a pérfidas ações iconoclastas, como se o passado nada representasse, como se a memória fosse algo superado. Ignorantes não acreditam na memória. Pelo contrário: quanto mais perversos e mais ignorantes, mais medo têm da memória, que é o que resgata o ser humano.

A leitura das secções de falecimento me deixa cada vez mais agoniado, não tanto pela morte ou pelas perdas que são parte da vida. Mas pelo desprezo, pelo anonimato a que foram relegadas pessoas a quem Piracicaba deve tanto seja pelo trabalho que fizeram, seja pela simpatia que esbanjaram, pelo amor que deram. A transição piracicabana é tão frágil e lamentável que mesmo órgãos de classe ou entidades perderam referenciais quanto a muitos que os ajudaram a crescer e a se fortalecer. Morrem pessoas dignas e que foram operosas e são, apenas, uma nota na necrologia dos órgãos de divulgação, enquanto outras, vivas, recebem títulos duvidosos.

Estou pensando em dona Nelly Servolo, que morreu aos 94 anos e cuja história e vida não foram lembradas nem mesmo por entidades às quais a família Servolo serviu com dignidade e eficiência por toda uma vida. Dona Nelly, da Casa Nelly de calçados, esposa de Joaquim Servolo, o português que, chegando como um paupérrimo imigrante a Piracicaba, construiu uma fortuna sólida e invejável, um cavalheiro que abriu as portas de sua mansão em Cidade Jardim para recepcionar autoridades, a elite piracicabana; dona Nelly, mãe de meu falecido e querido Henrique Servolo, que nos cobriu – a nós, então adolescentes e jovens – com o carinho de sua generosidade.

Um leitor me pergunta, também angustiado, porque entidades de classe não cuidam de preservar a memória de nossa gente, porque não se revelam biografias dignificantes, entre as quais estaria incluída a de dona Nelly Servolo. Não é a mim que deveria ser feita a pergunta. Pois, no meu cansaço e diante do caos moral a que assisto em Piracicaba, vou mantendo a minha missão de beija-flor diante do incêndio, lembram-se? Havia o incêndio na floresta e ninguém se movia. O beija-flor voava até a lagoa, apanhava uma gotinha de água, deixava-a para apagar o incêndio. Ia e voltava, ia e voltava, com sua gotinha de água. O elefante, idiota e cínico, riu-se: “Se nem eu, com minha tromba, vou apagar o incêndio, é tolice sua pensar que, com gota dágua, você irá conseguir.” O beija-flor respondeu: “Estou fazendo a minha parte.”

Ao homenagear dona Nelly Servolo, com saudade e lembranças felizes mas tristes, lamento-me de entidades que a esqueceram, que tem esquecido nossos grandes homens para, em lugar disso, prestigiarem aventureiros, oportunistas e gente esperta. Dona Nelly, saudade de muitos que a conheceram, minha saudade. Honrando sua memória, faço a minha parte. São terríveis estes tempos de oportunismo. Mas eles passam. E bom dia.

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