Apenas meninos

picture (69)De repente, lá me chegou o e-mail de um primo distante, agora senhor idoso, passado dos 70 anos, jurista. Ele queria, apenas, saber se eu ainda tinha, guardados, os meus jogos de futebol de botões. Pois os dele, meu primo ainda os guardava e ficara com vontade de voltar a jogar. E insistia, lá de Bauru: “Mas o meu time ainda é o XV, com Gatão, Idiarte, Pedro Cardoso…” Não lhe pergutei se sabia, hoje, o estado lastimável do Nhô Quim, a sua persistência em sobreviver, as tragédias futebolísticas que nos vieram após a morte de Romeu Ítalo Rípoli.

Ora, para o homem, um dos segredos da vida está em crescer e envelhecer sem perder o coração de menino. Pois, nele, no coração do menino, palpita a sabedoria da existência. A felicidade é busca e apenas o coração sabe dela. Há alguma verdade que não se encontra, que nunca se sabe onde está. A simples busca já é uma forma de felicidade e, talvez, seja a única. Se se encontra e se se tem a posse daquilo que se buscou, encontro e posse decepcionam. O coração sabe dessas coisas. Enquanto a razão analisa, discorre, distingue, a inteligência compreende e sintetiza – o coração sente. E o do menino, com mais limpidez.

Há poucos anos, eu descobri ainda haver – eem homens que envelhecem – muito mais meninos do que eu supunha. Meninos com corações talvez machucados e doloridos, mas intocados em sua beleza. Descobri-o como que por acaso, incidental e acidentalmente. Eu escrevera sobre cavalos que encantaram crianças e adolescentes de minha geração. Os de Roy Rogers, do Zorro, do Tonto. E a simples lembrança de heróis e seus cavalos se transformou em assunto sério, pois, sem o perceber, eu mexera com algo senão sagrado pelo menos mítico. Eram ícones, símbolos de que, na brincadeira, eu me aproximara, esbarrando neles. De repente, corações de menino revelaram-se.

A dúvida surgira quanto ao nome do cavalo de Roy Rogers: Trigger ou Silver? Uma pequena multidão de amigos opinou, discutindo, relembrando, dando informações, pesquisando. Foi quando o Chico França decidiu a questão indicando-nos um site dos gringos dos States, sobre os heróis e seus cavalos, www.cowboypalm.com/hosses.html. anças, revelavam-se corações de meninos, no ressurgimento de um mundo de fantasia e generosidade ainda intocado. Os heróis do Velho Oeste, na delimitação perfeita do bem e do mal, revelavam uma concepção de mundo mais fácil de ser entendida e vivida: mocinho era mocinho e bandido, bandido. E o crime não compensa, ao contrário de hoje, quando a filosofia de mundo e de vida prova que é o crime que compensa, enquanto a correção e a virtude são derrotadas.

Ora, eu me prometera, à época, após a redescoberta dos heróis e seus cavalos, procurar os jogos de futebol de botões nos fundos de meus baús. E me esqueci. Com o desafio de meu primo setentão, para jogarmos algumas partidas, sinto-me no dever inadiável de remexer os meus guardados, na triste convicção, no entanto, de que nada sobrou dos meus jogos de botões. Preciso voltar a montar meu time. E já que meu primo continua com o XV, tenho que reorganizar o meu velho Corinthians, com um Baltazar insuperável, grande e velho botão que arranquei a um casaco de lã, um mantô, de uma tia que já morreu.

A graça do mundo ainda não desapareceu. Está apenas escondida. Ainda há tempo para reavivá-la. Pois o mundo precisa. Dar graça ao mundo é preciso, corrompê-lo ainda mais não é preciso. E bom dia.

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