Aprender por experiência própria

ProibidoHá coisas que não dão certo na vida e não adianta teimar. Mas também não adianta explicar, pois a vida é uma experiência pessoal que não se transmite. Cada um tem a sua. Cada pessoa é uma pessoa, em seu momento, o “homem e sua circunstância”.

Com os meus filhos e os mais jovens, eu sempre usei o exemplo do sinal de “trânsito proibido”. Ora, não sou de dar conselhos, nem mesmo a filhos. Mas tenho, até mesmo por responsabilidade, de dar opinião. Então, o “trânsito proibido”, aquela plaquinha, me serviu muito como metáfora, ainda me serve. As pessoas experientes, os mais velhos, quando estão numa estrada e vêem a placa do “trânsito proibido ou impedido”, param, desviam-se. Os mais jovens não acreditam: precisam ir em frente para, com os seus próprios olhos, descobrir porque estava proibido ou impedido.

É quando descobrem, na própria experiência, que há coisas que não dão certo. A sabedoria está, portanto, em aprender com os outros. Mas, como se fosse um castigo, temos que aprender conosco mesmo, na vida. Por isso, é tolice dar conselhos. Eles não interessam a ninguém. (Escrever também tem disso: não interessa a ninguém, não tem qualquer importância. Escreve-se por hábito ou por necessidade. E, quando escrever é necessidade da alma, as coisas se complicam ainda mais).

Por exemplo, para mim, Carnaval nunca deu certo. Demorei para descobrir e entender, mas acabei descobrindo e entendendo. Era apaixonado por Carnaval. Mas, desde a juventude, Carnaval foi uma encrenca em minha vida, uma complicação. Burro que sou, acabava acreditando que sou pierrô e que, portanto, tinha que haver uma colombina comigo. E me apaixonava pela desgraçada! E a confusão acontecia, pois sempre existem outras pessoas envolvidas – uma namorada, uma noiva, a mãe dos filhos – e essas pessoas são absolutamente incapazes de compreender a maravilha da paixão, especialmente se é paixão de Carnaval. Então, dava encrenca. E é encrenca das bravas, complicação sem tamanho.

Ser pierrô não é fácil. Há quem não entenda. E o que pode haver de mais lindo e, ao mesmo tempo, de mais trágico do que a paixão de pierrô e colombina? É vida e morte ao mesmo tempo. Paixão é isso: vida e morte. Amor rima com dor. Viver uma paixão é bom. Mas dói.

Sabedoria se aprende com a vida. Acho que aprendi e, por isso, deixei de ir ao Carnaval. Para mim, Carnaval se tornou aquela plaquinha de “trânsito proibido ou impedido”. Se eu for, já sei o que vai acontecer. Então, para que não aconteça, não vou.

*Publicada originalmente na Tribuna Piracicaba em 20/02/93

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