Árabes e judeus, aqui

crimesA história humana – contada pelos chamados livros sagrados – foi e continua sendo escrita com sangue e discórdias. O Deus monoteísta – de judeus, cristãos e islamitas – causa muito mais espanto por sua cólera do que pela misericórdia. Pelo menos, para mim. Desde o Éden, as coisas são complicadas. Criando o homem, Eva e Adão, eis que, por uma desobediência, os expulsa do paraíso. Coitados, cuja única culpa foi a de serem humanos.

E os conflitos seguem em frente: Caim mata Abel; os filhos de Noé brigam entre si. E Abrahão – pai da nova fé – é testado de uma maneira brutal, quase inacreditável. Deus ordena que ele mate o próprio filho, Isac, que se tornaria Jacó. Por que isso? Para assustar o velho Abrão, para judiar dele? E esse mesmo Abrão que, sem qualquer piedade, expulsa o filho Ismael, gerado por sua amante Agar, a escrava? Por capricho e ciúme de Sara, que gerou Isac, Abrão divide a sua própria carne e divide a humanidade. Isac, o  judeu, é irmão de Ismael, o negro filho da escrava Agar. E ambos são semitas, descendentes de Sem. Desde o início, pois, a luta é  fratricida.

É uma história complicada e penso ser melhor não escarafunchá-la muito, para não nos perdermos em perplexidades e confusões. Abrão tenta matar o próprio filho, Deus não socorre Jesus, que lhe pede socorro ao ser crucificado. Que pai humano pode entender essa loucura divina? Vai daí que, pelo visto, até hoje a história continua complicando-se, na estupidez familiar entre árabes e judeus. E na chamada Terra Santa. E em todo aquele universo oriental onde a história judaico-cristã-muçulmana começou. Quem se lembra que Abrão nasceu em Ur, onde está o Iraque?

Piracicabanos antigos não conseguirão jamais compreender esse fratricídio. Pois, aqui – nesta terra que foi amorável, “risonha e franca” – aprendemos, ainda que a duras penas, a arte da convivência, do convívio, do respeito, da fraternidade. Não que desconheçamos preconceitos, ódios, injustiças. Existiram e muitos. Talvez, agora, ainda existam outros e piores. Mas estão, pelo visto, ocultos debaixo de tapetes hipócritas.

Imigrantes fizeram e construíram Piracicaba. E ainda chegam e continuamos de braços abertos. Tudo foi difícil no começo, quando os herdeiros de portugueses – chamados de “quatrocentões” – viram chegar levas de alemães, italianos, sírios, espanhóis, japoneses, judeus, tantos outros. Os preconceitos foram terríveis: “alemão batata”, “turco safado”, “judeu ladrão”, “italiano sujo”, “espanhol à toa”, “japonês traidor”. Mas prevaleceu a persistência dos que chegaram e a aceitação dos que aqui estavam.

Em plena II Guerra Mundial, nas ruas onde morei – São José, Moraes Barros, no centro da cidade – éramos uma comunidade por assim dizer internacional. Na Rua Governador, lá estavam os judeus Polacow e Natan, à frente e ao lado dos árabes Jorgito Kraide e Salim Maluf. Mário Japonês com seu pastel inigualável. Os italianíssimos Gatti, Furlan, Cardinalli. A polonesa Maria da Pfaff, de sobrenome Matiazzo. Os brasileiríssimos Dito Alfaiate e Marcelo Nogueira de Lima, bem ao lado do médico Alarico Coury e de Millim Thame, com meu pai, Tuffi, na rua à frente, todos sírios-libaneses. Era um modelo de Nações Unidas. Fraternos, amigos, companheiros.

E um exemplo – que judeus e árabes do Oriente Médio deveriam olhar com carinho – foi o de Jayme Rosenthal e Ibrahim Daibes. O judeu Rosenthal – felizmente ainda vivo e lúcido ao nosso lado – e o árabe Daibes, além de amigos, eram sócios de uma respeitável agência de automóveis. E amaram-se como irmãos. Se aqui – numa pequenina aldeia do mundo, onde os conflitos deveriam ser maiores – houve a fraternidade entre primos historicamente separados, por que não ter esperanças de que isso venha a acontecer no Oriente Médio?

Se esperar cansa, esperançar é preciso. Bom dia.

2 comentários

  1. Delza Maria Frare Chamma em 08/08/2014 às 12:18

    Pois é!!!!!!!!! Enquanto esse Deus raivoso da história do construcionismo iniciou essa rusga monstruosa que até hoje faz o sangue do mais fraco jorrar e inundar a terra que deveria dar “leite e mel”, Darwin, o cientista, aquele que demonstrou pela evolução das espécies e o aparecimento do tal do “homo sapiens”, se horrorizaria ao ver, hoje, no que se tornou esse espécime humano: – o homem, ou seja, o pico da evolução e aquele em que a razão seria a âncora que o escoraria em sua travessia humana, científica, racional e sábia pelo planeta Terra. Cecílio, amigo querido, teria eu sentido em sua crônica de hoje a desesperança que sinto eu agora em relação ao ser humano?

  2. Toni em 11/08/2014 às 10:32

    Lá, como cá, não sabem escolher líderes. Somos povos atrasados, politicamente. Aquí muito bolivarianismo demagógico, lá, fundamentalismo religioso.

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