Archimedes, centenário e memória

picture (7)Em junho, acontecerá o centenário de nascimento de Archimedes Dutra. Não sei se, com exceção de Lauro Libório Stipp, alguém irá prestar uma homenagem concreta a um dos maiores artistas plásticos de Piracicaba em todos os tempos. Ou, apenas, balbuciar uma oração de agradecimento. Isso preocupa. Pois perda de memória significa morte. Em Tróia, o grande Aquiles morreu por tê-la perdido.

A história é curta, bela e trágica. E lição permanente. Na Guerra de Tróia, o oráculo previra que, se matasse um filho de Apolo, Aquiles também encontraria a morte. Para que lembrá-lo da profecia, sua mãe lhe deu um servidor, Mnémon, “aquele que se recorda ou que faz recordar”, a Memória. Mnémon, no entanto, falhou, Aquiles esqueceu-se da profecia e a tragédia anunciada aconteceu. Portanto, sem memória até os deuses morrem. Mesmo porque é a deusa Mnemósine, também personificação da Memória, quem, dormindo nove noites seguidas com Zeus, gerou as nove Musas. Musas e memória têm, pois, o mesmo umbigo.

O centenário de nascimento de Archimedes Dutra poderá dar a dimensão da memória de Piracicaba, especialmente num tempo em que tanto se fala de redescoberta de identidade, de recuperação de valores. Archimedes – controvertido, polêmico, muitas vezes arrogante – é um dos ícones das artes piracicabanas, parecendo que o espírito de Miguelzinho Dutra iluminara, de maneira especial, o seu notável descendente. Quando Archimedes desapareceu, as artes piracicabanas não se interromperam, mas sofreram de um vazio profundo, como se lhe faltasse o referencial maior.

O Salão de Belas Artes de Piracicaba – mais do que cinqüentenário – é filho dileto e generoso de Archimedes Dutra, um sonho que ele nutriu juntamente com Eugênio Luiz Losso e o escritor David Antunes. O que tínhamos de mais esplêndido nas artes plásticas piracicabanas participou daquela mostra primeira, alguns deles ainda vivos e consagrados. “Currenti calamo”, vêm-me as figuras ilustres de Eugênio Nardin, Gilberto Dutra. E lá se foram Losso Netto, Antônio Pacheco Ferraz, Bertico Thomazi, Álvaro Sega, Joca Adâmoli, Manoel R. Lourenço, Frei Paulo, entre outros pioneiros daquele salão. Com Archimedes, eles nos olham das nuvens, pintando arco-íris.

Quando prefeito de Piracicaba, José Machado revelou um de seus projetos que não chegou a ser elaborado: o de criar o “Panteão de Piracicaba”, onde pudéssemos honrar e celebrar a memória de nossos ancestrais notáveis, paradigmas de um povo ao longo da história. É inspiração que brota das funduras dos séculos. O panteão que os romanos ergueram a seus deuses foi, de certa forma, a maneira de manter vivos o respeito e a devoção. Tal como na iconografia e no calendário cristãos, cada dia consagrando a memória viva de seus luminares.

Ao lembrarmos que a Memória gerou as nove musas, a intenção foi, também, a de recordar que Museu – além de poeta, músico, amigo de Orfeu – passou a simbolizar um espaço, o lugar das musas. Portanto, memória, museus – apesar de tolos que os vêem como passadismos – significam vida. Sem a memória, como aconteceu com Aquiles, morre-se. Sem museus, não há onde as musas se encontrarem.

Pensar no centenário de nascimento de Archimedes Dutra, talvez, nos servisse para captar os sinais dos tempos, ouvir os sussurros da memória. Bom dia.

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