As pedras de Nhô Lica

PedrasA minha quase obsessiva atração por pedras, nunca a entendi a não ser como poderosa influência de Nhô Lica, o mais fascinante de nossos personagens populares. Eu o via – o grão senhor Felix do Amaral Mello Bonilha – todas as tardes, passar diante de minha casa, vindo do rio pela rua Moraes Barros, carregando seus pedregulhos, para depositá-los numa caixa do então Banco Commercial, onde está, hoje, o Itaú, na Praça José Bonifácio. O gerente do banco, seo Gustavo, atendia Nhô Lica com toda a seriedade e respeito, guardando as pedras como se fossem preciosas, diamantes que o nosso doce louco da aldeia acreditava fossem.

Também quase todas as tardes, na minha primeira infância, eu ia ao Clube de Regatas, com meu pai, do qual ele era diretor. E eu me sentia abençoado por algo misterioso ao ver meu pai ajudando Nhô Lica a catar pedras, chamando-me para ajudá-los. Era como participar de uma celebração que, por não entendê-la, me parecia sagrada. Cada pedrinha de Nhô Lica, não sendo nenhum brilhante, era, porém, sagrada.

Monsenhor Rosa, vigário da Catedral de Santo Antônio, fez questão – quando Nhô Lica morreu, em 1954 – de que as pedras dele fossem depositadas no chão da igreja, entre obras de reforma que se faziam. Foi, de certa maneira e com toda certeza, uma consagração delas e do velho garimpeiro, tributo ao sonho encantado de Nhô Lica.

Sempre me pareceu estranho o respeito quase sacramental que se tinha, em Piracicaba, por Nhô Lica e suas pedras. Por que um homem tão sério como o gerente do banco, seo Gustavo, e um sacerdote austero, como Monsenhor Rosa, se rendiam em respeito quase majestático ao nosso louco da aldeia? O que havia de precioso naquelas pedras, catadas à beira do rio, muitas das quais eu mesmo, com minhas mãozinhas de criança, ajudei a recolher? O sentimento de quase reverência era às pedras ou ao catador delas? Lembro-me de, certa vez, ter escrito quase um poema para Nhô Lica, chamando-o de nosso Fernão Dias, caçador de esmeraldas.

O fato é que, certo dia, me descobri como que imantado pela estranha fascinação por pedras. Em viagens de férias, eu catava pelo menos uma pedra como lembrança de lugares onde estive. Pedras de praias, pedras de montanhas, pedras de lugares que me despertavam impressões estranhas, quase sagradas. Quando soube da derrubada do Estádio do XV, transformado em supermercado, corri até o local e, sem autorização de ninguém, catei uma pedra e um tijolo daquele templo do futebol. Guardo-os até hoje, numa parede onde está uma telha da casa de meu avô na Santa Rita, uma pedra do Itapeva, outra do rio, uma placa do também assassinado Hotel Central, outra telha feita na olaria da rua do Porto, de meu tio, onde estão as duas imensas chaminés.

Com o tempo, descobri, então, que Nhô Lica apenas me tocara a alma num ponto ancestral, na milenar atração do homem pela pedra. Tudo já me estava na alma, desde a mitologia primeira que cita “pedras caídas do céu”. Desde Prometeu – o procriador do gênero humano – “as pedras conservaram um odor humano.” Na realidade, há vínculos estreitos entre a pedra e a alma, precisei descobri-lo ao longo da vida, em observações que acabaram me conduzindo a longos estudos. O templo dos antigos tinha que ser construído com pedra bruta, não com pedra talhada. Pois esta é apenas obra humana, dessacralizadora. A pedra bruta significa, enquanto símbolo, a liberdade; pedra talhada, a servidão.

Nhô Lica, em sua santa loucura, intuiu tudo isso, talvez sendo inspirado pela memória dos povos reverenciam a pedra: a da Caaba, em Meca, pedra negra que os islamitas tocam e beijam com devoção; a pedra que o Dalai Lama recebeu do Rei do Mundo; a pedra angular e a pedra filosofal, que a Maçonaria veio a retomar; as pedras dos índios e, enfim, a pedra da sabedoria. Entre cristãos e judeus, a pedra sempre esteve presente: Moisés fez surgir a fonte d´água após bater numa pedra. Ela é, também, símbolo de cristo.

Nhô Lica sabia disso e Piracicaba intuía, acho eu. Pena não se saiba em que ponto do chão da Catedral estão também as pedras de Nhô Lica, para que as pessoa pisassem respeitosamente. Pena, também, que ninguém mais fale, à alma das crianças, a respeito da alma das pedras. Bom dia.

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