Até aqui, pouparam Tiradentes

TiradentesUma de minhas surpresas é saber que, diante das campanhas torpes que se avolumam na imprensa brasileira e na internet, não se tenha, ainda, abolido o feriado em homenagem a Tiradentes. Afinal de contas, ele foi um revolucionário, um dos inconfidentes da Independência, que bem passaria, hoje, pelo massacre moral que se fazem aos guerrilheiros que enfrentaram a pérfida ditadura militar brasileira.

O Brasil dos ressentidos, dos canalhas refestelados em seus gabinetes não suporta heróis, insurgentes contra injustiças, rebeldes com causas honestas. Veja-se que o próprio Tiradentes é, em conversas e em livros, desmoralizado como se fosse um tolo, um louco ou um simples gato pingado contra quem se levantaram culpas. Apegamo-nos a uma infeliz frase, atribuída a Brecht, que lamenta países que precisam de heróis. Ora, bolas: os referenciais das gerações teriam que ser os bandidos, os corruptos, os negocistas, oportunistas que sempre se aproveitam dos governos de plantão?

A grande história da humanidade foi escrita, sim, pelos insurgentes, pelos rebeldes, também por guerrilheiros que deram de sua vida por causas justas e decentes. Quem foi jovem ou teve consciência na década de 1950, sabe e se lembra de quanto o mundo se tomou de júbilo e de entusiasmo quando jovens barbudos, guerrilheiros em Sierra Maestra, em Cuba, lutaram, dando de sua vida para derrubar o governo espoliador e corrupto de Havana. Dizer que Fidel e Che Guevara eram comunistas é bazófia e mentira histórica. Fidel tinha, no peito, uma medalhinha de Nossa Senhora e seu sonho e de seus companheiros foram o da libertação de seu país, um sonho que contaminou toda uma geração mundial. Acolher o apoio da União Soviética foi a alternativa que lhe sobrou quando, ainda outra vez, a estupidez da política internacional dos Estados Unidos impôs sanções e controles sobre a revolução cubana, nacionalista e redentora à época.

Os nazistas foram derrotados na França pela insurgência de jovens guerrilheiros, de homens e mulheres que arriscaram sua vida pela pátria, os “partisans”, grupos urbanos de guerrilha, e os “maquis”, apoiados pela população rural. Enfrentando as SS nazistas, a Gestapo, eles ouviam a palavra de ordem de De Gaulle que pregava e estimulava as guerrilhas contra os invasores. E, quando De Gaulle se deu ares de imperador no final dos 1960, foram os estudantes franceses, guerrilheiros urbanos, que transformaram a velha República. A heroica resistência e vitória esmagadora do Vietnam contra os invasores da França e dos Estados Unidos aconteceram a partir da guerrilha organizada. E, no Afeganistão, é a mesma guerrilha que já expulsou a Rússia e está levando ao desespero a invasão estadunidense.

No Uruguai, o presidente da República é um heroico guerrilheiro que, com os tupamaros, enfrentou e venceu a ditadura sanguinária dos militares, fenômeno de guerrilha que se repetiu na Argentina, no Chile. E, no Brasil, a reação contra as mortes criminosas, contra a violência inominável, contra a pérfida ditadura militar surgiu também da juventude guerrilheira, que, generosamente, enfrentou baionetas, canhões e fuzis. Quando se lembra que muitos assaltaram bancos, farisaicamente não se fala que eram banqueiros e empresários os que financiavam a Operação Bandeirantes, a Oban, que matava e torturava civis. Insurgentes, embora uma elite rançosa e pérfida tente falsear a história, foram os grandes heróis daquela geração, saindo de peito aberto para enfrentar as tropas de generais enlouquecidos ou os paramilitares de um sádico como Sérgio Paranhos Fleurys. E quem se esquece de que houve verdadeira guerrilha nacional em prol das eleições diretas e uma outra, a dos caras-pintadas, para derrubar o farsante Fernando Collor? Guerrilhas nem sempre são sangrentas, apesar de o famigerado Coronel Erasmo Dias ter proposto a violência geral quando declarou, baioneta em punho na invasão de universidade: “Guerra é guerra”. Tiranos foram demoníacos, guerrilheiros da resistência foram heróis, essa a verdade.

Por isso, quando há um sórdido movimento para deslustrar a grande luta pela democracia na qual a guerrilha foi, sim, parte importante, admiro que a história oficial não tenha, ainda, anulado do calendário os heróis da Inconfidência Mineira. Talvez, eles pretendam, apenas, glorificar os que saíram do Brasil, alguns, como Fernando Henrique, com bolsa de estudos financiada pela Fundação Ford. A sordidez perde os limites: um sequestrador como Fernando Gabeira é idolatrado por ter-se tornado aliado do atual tucanato; ninguém fala de que companheiros de José Serra, como Aluísio Nunes Ferreira, foram guerrilheiros também. Mas querem estigmatizar Dilma Roussef, uma heroína de sua época, que foi torturada, massacrada, mas não denunciou seus companheiros de luta tornando-se mulher sem mágoas, sem ranços, que oferece a sua nova vida à reconstrução de um novo Brasil.

Esqueceram-se de Tiradentes nas comemorações cívicas. Talvez porque, como inconfidente, ele lembre heróis de resistência, de guerrilhas, que venceram ditaduras, torturadores, monstros humanos. É hora de rever essa pérfida confusão que se faz entre asilados e exilados. Muitos fugiram à luta, sim. Outros fugiram para sobreviver, o que é legitimo. No entanto, exilados quase não houve nenhum. Bom dia.

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