Aulética e Dia da Mentira

pictureDois assuntos animaram-me: primeiro, aprendi porque há tantos gatos siameses vesgos. E me encantei ao descobrir a aulética, que teria sido criada pelos fenícios, meus antepassados. Imaginei a aulética transmitida aos gregos, depois a todo o Ocidente, senti-me orgulhoso. Ao primeiro toque no teclado do computador, lembrei-me, então, de ter chegado o “Dia da Mentira”. A fascinação foi maior.

Vejam bem: o que aprendi, a respeito do “Dia da Mentira”, foi com o Mário Souto Maior. Para mim, ele voa – nas alturas do folclore e da mitologia brasileiros – nas nuvens onde descansam Câmara Cascudo, Alceu Maynard de Araújo, João Chiarini. Todos eles contando mentira. Aliás, foi através do Chiarini que descobri Souto Maior. Logo, se errado estiver o que aprendi sobre o “Dia da Mentira”, a culpa é do Mário. E de outros que repetem a mesma história.

Conta-se que Carlos IX, rei de França, resolveu, em 1564, mudar o calendário. O ano, que começava em 1º de abril, passou a ter início em 1º de janeiro. A mudança demorou a ser adotada por outros países, que não a França. E, com isso, os franceses transformaram o Primeiro de Abril em dia de gozações, de gracejos, as “plaisanteries” deles. De brincar a mentir, foi um passo. E o “Dia da Mentira” universalizou-se. Mesmo porque mentir é uma das delícias da vida humana, arte refinada.

Deixando de lado a vesguice dos gatos siameses e a aulética, deu-me vontade de escrever, hoje, uma tão grande mentira, tão deslavada e formidável que todos haveriam de acreditar. Pois, desde o Barão de Münchhausen, a arte da mentira tem um segredo especial: para ter credibilidade, precisa ser grande, mentira espetacular. Mentirinha vagabunda é desprezível.

A boa mentira é pedagógica. Políticos, falsos profetas, jogadores de búzios conhecem a arte. Eu não ia contar, mas que vá. Lá estava eu, solteirinho- da- silva. De repente, como na canção do Caimmy, “aconteceu um novo amor…” E eis a desgraça: “…que não podia acontecer.” Mas aconteceu, “que vou fazer?” À beira do lago de Santa Rita, ficamos, pombinhos embevecidos, olhando estrelas. E, quando amanheceu, fui por a camisa e… Que besteira é essa? Não pus camisa alguma, eu estava com ela. Apenas percebi que minha roupa ficara toda suja de barro. Como voltar para casa, aquela barreira toda, se dois filhos e amigos deles estavam lá? Eis a importância da mentira bem feita. No próximo parágrafo.

Dia bem amanhecido, fui à casa de minha irmã mais velha. Não me lembro se me belisquei, se estava beliscado. Sei que cheguei e pedi ajuda: “Lutei com traficantes a noite toda. Levei uns dez tiros, escapei, dei um soco num bandido e ele desmaiou, mas o outro me atingiu, caí no chão, rolei, enfiei-me no mato, fugi. Se eu voltar para casa com essa roupa, meus filhos vão se assustar.”

Minha irmãzinha chorou de pena de mim, emprestou-me calça e camisa de seu marido, hoje, finado, Deus o tenha – entrei em casa feito herói. Mas com saudade daquelas margens plácidas e barrentas, onde eu ficara deitado eternamente em berço esplêndido, ao som do lago e à luz do céu profundo…

Logo, mentir pouco é bobagem. Vejam o Lula. Quando falou de a crise ser apenas marolinha, o povo acreditou e aplaudiu. Agora, entre ele e as promessas de Fernando Henrique, tudo parece estar igual nas mentirinhas ao povo. Que, aliás, dizem ser mentiras necessárias e caridosas.

E a aulética, o que tem a ver? Nada. Apenas encantei-me ao saber que aulética é a arte de tocar flauta. Não é bonito? Então, tá. E bom dia.

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