Aves avisam

Já contei o que ocorreu e disse, também, não gostar da palavra absurdeza. De dizer, por exemplo, ter sido absurdeza o que aconteceu comigo e o pica-pau. Mas absurdeza existe. E é pior do que o absurdo. Como é que alguém pode ficar brigando, ao longo de dez dias, com um prosaico e bobo pica-pau? Comigo aconteceu. E fiquei quase neurótico. .

Preciso, no entanto, explicar-me, nesse tempo em que, para se escrever disso, há que se falar daquilo. É como se, em tudo, estivéssemos precisando de desculpas ou de preâmbulos. Mesmo assim, alguns fingem não entender. E, geralmente, são os que mais próximos estão de nós. Isso posto, digo ser preciso, como falou o poeta, “ver (e ouvir) estrelas”. É coisa antiga: as mensagens chegam dos céus. Quando falamos de augúrios, mal pensamos estar admitindo a sabedoria daqueles visionários da humanidade, os áugures, que ficavam olhando os céus. Eles entravam no templo, acomodavam-se para olhar, por uma pequena abertura, o espaço limitado do céu. Ficavam à espera de sinais. Aves passavam, raios estalavam, nuvens desfilavam – e eles, então, entendiam seus sinais. E, interpretando-os, diziam dos bons ou maus augúrios.

O povo sabe disso. Basta pensar em segredos, grandes e pequenos, cochichos, fofocas e perguntar, ao informante, como ele soube do que contou. A resposta, misteriosa: “Passarinho me contou.” Até hoje, somos áugures, passarinhos contam-nos coisas e nem sempre entendemos que aves avisam. Foi minha briga com o picapau. Mas, antes dele, vou contar do beija-flor.

Há algum tempo – e quase por uma semana – um beija-flor azulado aparecia à janela do meu cantinho de escrever, como que um sótão da casa. Ele chegava, ficava parado no ar, olhava-me por algum tempo, ia embora. No dia seguinte, voltava. Ora, se passarinho tem coisas a contar, o que estava querendo dizer-me o beija-flor? O resultado é que, antes de começar a trabalhar, comecei a esperar o bichinho aparecer. E, enquanto ele não aparecia, eu não escrevia. E, enquanto eu o esperava, as idéias começavam a surgir. E ele não me falava nada. Só que estava falando e eu não tinha percebido: ele chegava para eu ficar respirando, acalmando-me, pensando melhor nas coisas, desintoxicando-me das notícias dos jornais da manhã. Era o recado.

Mas e o pica-pau? Da primeira vez, levei tal susto que – como era tempo do Bush – pensei fosse alguma bomba dele estourando em minha casa. Mal amanhecera, da clarabóia da sala vinha um barulho forte e repetido, como se alguém batesse ou quisesse entrar: “poc, poc, poc.” Era o pica-pau bicando a vidraça. Mal-educado, o pica-pau me acordava ao alvorecer. E assim ficou por uns dez dias: “poc, poc, poc.” E eu querendo espantá-lo, sem saber como se espanta pica-pau. “Passa, pica-pau.” – gritei, da primeira vez. Mas me lembrei que “passa”, a gente grita para cachorro. “Puxa daí, pica-pau.” – mas “puxa daí” é para criança. Tentei, também, o “xô” e o “psiu”.

Até que, enfim, eu me lembrei dos áugures, olhando o céu pela abertura do templo, aguardando mensagens das alturas. O que tinha o pica-pau a me contar? Qual a mensagem, qual interpretação deveria, eu, tirar daquela matinada barulhenta? Sei que, com o passar dos dias, comecei a acordar antes de o pica-pau chegar, como que esperando- o . Aguardava, aguardava, de repente, ouvia: “poc, poc, poc.” Então, voltava a dormir em paz. Pois o pica-pau já chegara.

E o que me contou o pica-pau? Foi uma absurdeza. Ele nada contou. Era apenas um chato a mais. Bom dia.

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