Banalidade de matar

picture (90)O que era tragédia vai-se tornando parte do cotidiano. Assim, logo, logo, será enfadonho o escrevinhador comentar a notícia que se tornará banal: filhos matando pais, pais matando filhos. Quando ocorre e chega aos meios de comunicação, há, cada vez mais, estremecimentos e indignações de menos. É como se as almas já estivessem prevenidas. Pois é história milenar, com a idade da própria raça humana. Que nos chega das vísceras do tempo.

Agora, no entanto, mata-se tudo, matam-se todos. Por futilidade. Antes, pais matavam primogênitos, deuses exigiam o sangue de nações inteiras, irmãos mataram irmãos, a morte em nome da divindade. Isso nos vem desde os caldeus, passa pelos egípcios, caminha pela história, registra-se nos palcos da tragédia grega. Quando Freud agarra-se à figura de Édipo, tentando resumir o horror humano, apenas traz, para tempos mais próximos, a fábula que Aristóteles considerou a mais perfeita das tragédias gregas, “Édipo Rei”, de Sófocles. Desde Abrahão, o Ocidente traz heranças milenares desses deuses sedentos de sangue, de sacrifícios, de guerras sem fim entre pais e filhos, irmãos e irmãos.

Amigos em mesas de bar, pensadores, filósofos, analistas, padres confessores cansam-se de saber: há sempre alguém querendo matar a pessoa amada ou desejando que ela morra. Se, nos primórdios dos tempos, matava-se o outro no altar do sacrifício, agora, mata-se apenas por matar. Renunciando–se ao sagrado e à ancestralidade, até os parricídios tornam-se banais.

A experiência de viver se faz em alta velocidade, na adrenalina enlouquecida. Querendo participar de tudo, não se distingue o essencial. Não se diferencia, então, o encantamento do horror. Não há tempo de pensar. Nem de sentir. As pessoas não amam e não odeiam, apenas passam umas pelas outras. E provocam a mais cruel das mortes: a indiferença. Se não há mais altares de consagração – o do mistério, o da amizade, o do amor, o da ancestralidade – viver é um simples estar. E, então, pouca diferença há entre amar e odiar.

Sagrados são os filhos, sagrado é o lar, sagrada é a família, sagrada é a Terra, desde o chão que se pisa até o túmulo onde se repousa. Sem a sacralidade da vida, apequenam-se os sentimentos. Não há mais papéis a cumprir, a não ser aqueles de passagem, descompromissados. A família e o lar tornam-se – até mesmo quando os filhos ainda fazem parte dela e estão nele – lugar de passagem, a hospedaria, um espaço de solidão de cada um entre muitos. Pais e filhos – na periferia ou na epiderme do amor – tornam-se, quando muito, amigos ou simples conhecidos. E, também, inimigos. Como ser filho, se não se enxerga o pai?

Quando – com a tranqüilidade de quem vai ao clube – filhos matam os pais, vê-se a perspectiva banal de vida e de morte. Sem a experiência de um mundo consagrado, o ser humano não outra dimensão além de sua condição primitiva de bicho. Pois a sagração da vida e do mundo é permitir a vivência, ao mesmo tempo, do Nefando e do Inefável – de tudo o que é horror e de tudo o que é sublime. Em cada um de nós.

É assustador ver o número de pais e mães matando filhos pequenos, bebês. E filhos matando pais. Na verdade, eles não matam nem filhos, nem mães, nem pais. Matam pessoas conhecidas. Não há tragédia, mas outro fato corriqueiro da violência como hábito. Com a mesma frieza, jovens podem matar professores ou donos de um hotel que os contrariassem. São apenas crimes vulgares.

Ora, não se profana o que não é sagrado. E o nefando ocorre tão somente onde houver o inefável. E – entre pais e filhos, lares e família – o inefável, para onde foi? Bom dia.

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