Bar da Loura, Casa da Ruth…

Há alguns anos, numa entrevista com o Amaury Júnior, conversamos a respeito de delícias e peculiaridades interioranas. Foi conversa entre dois caipiras, ele de Rio Preto.Por ele, fiquei sabendo da iniciativa de uma cidade também caipira de Minas Gerais, inovação formidável, de dar inveja. Na cidadezinha mineira, fora criada uma lista telefônica na qual, em vez de nome das pessoas e suas casas comerciais, listavam-se os apelidos, a maneira como eram conhecidas da população. Havia o telefone da Farmácia do Zé, do Chico da Padaria, do Pedro da Oficina.

Tive uma vontade danada de fazer lista semelhante em Piracicaba, terra dos grandes apelidos, especialmente consagrados, por exemplo, entre os estudantes da ESALQ. Na grande escola, quem tiver apenas nome e sobrenome não está integrado à comunidade. E os apelidos perduram pelo resto da vida. Entre os piracicabanos, também. Veja-se, por exemplo, a Casa Peu. Quem sabe o nome completo do Peu ou que Peu é apelido do fundador da casa, e que Peuzinho é filho do Peu da Casa Peu?

O Cuco Tacla morreu sem que a grande maioria das pessoas soubesse seu nome completo. E o Tiquinho, ex-presidente do Instituto Histórico, sempre foi Tiquinho, até à morte, sendo estranho chamá-lo pelo nome Haldumont. Tiquinho era filho de seo Tico da Farmácia. Até hoje, sofremos a saudade do Babico Carmignani, que era João.

Podemos fazer, sim, nossa deliciosa lista telefônica ainda hoje, muito embora os telefones fixos estejam com os dias contados. Mas valeria, a lista, para os celulares ou e-mails de nossa gente conhecida e querida. Teríamos indicações do bar da Loura, da farmácia do João Sachs e do Zé Cançado, a padaria do Waldir, o escritório do Fogaça, a relojoaria do Rodolpo, o açougue do Zílio, borracharia do Zé, funilaria do Pedro, posto do Zelão, trailler do Raimundo, choperia do Balu, cuscuz do Hélio, pão do Soledade, banca do Gianetti, quibe de seo Antônio, sanduíche do Claudinho….

As delícias interioranas são infinitas. Incluindo confusões e complicações. A mais grave delas, nas minhas lembranças, acontecia com a antiga zona do meretrício, notícia constante nas páginas policiais dos jornais. Mais do que ser zona – nas cercanias de onde hoje está o Jornal de Piracicaba – o local era famoso pela “casa da Ruth”, que nem Ruth era, pois o nome verdadeiro era Yvone Mansur. Tudo, porém, em sendo notícia ruim, se referia à Ruth: maconha na casa da Ruth, quebra-quebra na casa da Ruth, políticos na casa da Ruth. O nome de guerra prevaleceu sobre o nome real.

Até aí, nada de mais. O problema – e grave – é que , na sociedade piracicabana, havia uma distintíssima mãe de família com o nome real de Ruth Mansur, homônima da outra. O marido de dona Ruth socialite ficava enlouquecido, ainda mais porque era militar de alta patente, chefão em Piracicaba. Deu azar. Pois, em plena ditadura, descontar em militar e vingar-se de militar era preciso. Então, destacávamos cada notícia da outra Ruth Mansur, da zona, em estilo que permitia maldosas interpretações.

Por vingança, nunca mostramos que uma pessoa era uma pessoa e outra pessoa outra pessoa. Como na guerra, valia tudo: militar judiava de civil com farda e coturno, civil tentava judiar de militar com caneta e máquina de escrever, pois computador apenas engatinhava. Era complicado, mas divertido. Bom dia.

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