Bares também são templos

Antes de ser execrado pela fúria de grupos politicamente corretos, informo: deixei de ser fumante. Tudo terminou às 16h20, dia 23 de abril de 1998. Fumando e escrevendo, tive um infarto. Portanto, lá se vão dez anos do adeus ao cigarro. Sim, sinto-me mais saudável. Mas há noites em que desperto molhado de suor. No sonho, o prazer de fumar é tão voluptuoso que parece carnal. Mas resisto. Não voltarei a fumar. Portanto, que não me execrem os ululantes antitabagistas politicamente corretos. Sei e confirmo: cigarro é prejudicial à saúde, um mal.

Apenas não sei se maior ou menor do que o massacre da escravatura econômica.

Não é justo, porém, transformar o fumante num proscrito como o leproso bíblico. Este país enlouquece em falsas cruzadas moralistas, que escondem muito mais interesses econômicos do que a verdadeira preocupação com o ser humano. Não é a saúde pública a prioridade, mas obsessões e interesses. Governantes e lideranças parecem possuídos da chamada amnésia de gênese: ausência de noção de história, de passado, de origem das coisas, como se os tempos começassem a partir deles. Vozes medíocres banalizam questões ontológicas — como aborto, eutanásia e eugenia — e proclamam moralidade flexível: liberação de drogas, casamentos do mesmo sexo, prostituição legalizada. E, contraditoriamente, radicalizam em questões quase bizantinas. O cigarro em restaurantes é uma delas, tratada com mediocridade pasmante.

Ora, estou entre os que plenamente concordam com a chamada lei seca. Após beber, perde-se o direito de dirigir veículos. Pois são vidas alheias colocadas em risco. Com o cigarro, é preciso, sim e também, uma legislação que proteja os chamados fumantes passivos. Ambientes públicos fechados, escritórios, salas de entretenimento, cinemas, igrejas, escolas, hospitais e outros. Mas bares e restaurantes são lugares diferenciados, especiais, instituições mundiais míticas da cultura ocidental, alguns deles considerados verdadeiros patrimônios da humanidade. São, na verdade, espaços indefinidos, semi-privados e semi-públicos.

Há sérios estudos acadêmicos analisando a função social, de entretenimento e de socialização desses espaços. Desde as velhas estalagens de beira de estrada, o restaurant não era um lugar, mas coisa de comer, um caldo restaurativo. Na França de Diderot, era alimento do povo e dos nobres, dando nome a lugares também de encontro e de aconchego. A culinária francesa — pilar econômico daquele país — nasce da história de restaurantes, de bares, de botequins.

É história que fascina por sua origem à gauche. Tornaram-se espaços de restaurar e espaço de estar. E, com o tempo, lugares de liberdade e até mesmo de privacidade não existentes na própria casa dos cidadãos. Grandes composições, eruditas e populares, nasceram em mesas de bar. E primorosas obras de arte, de pintores e de escritores, algumas delas rabiscadas em guardanapos ou em toalhas.

Há bares imortalizados: o que acolheu Joyce, em Dublin; o boteco em Havana onde Hemingwy bebia mojitos, fumando charutos; os do Quartier Latin, onde Sartre filosofava à voz rouca de Juliette Grecco. Há o bar do Ricky, no inesquecível Casablanca, onde — sofrendo por Ingrid Bergmann — Humphrey Bogart pede, ao pianista Sam, tocar novamente As time goes bye. E, no Brasil, o boteco onde Vinicius e Tom criaram a Garota de Ipanema. E por aí vai.

Bares e restaurantes fazem parte da cultura dos povos. Freqüenta-os quem pode e quem quer e quem aprecia. O mais humano do mundo não está entre políticos, mas nos artistas, nos místicos, nos boêmios, nos angustiados, nos sensíveis, homens e mulheres que — não suportando inadequações e ansiedades — buscam refúgio e alento em pontos de apoio. O cigarro, mais do que vício, é parte dessa perplexidade. Que os fanáticos se lembrem: o tabaco é sagrado para índios, tribos fumam o cachimbo da paz e a fumaça é sinal de clarividência e força. E a paz mundial está registrada na foto de Churchill com seu charuto.

Muitos bares e restaurantes são, sim, outros templos, lugares com imenso valor cultural e artístico. Charutarias são espaços de cultura e de gastronomia. Na França antiga, essa cultura era refinada por salas recatadas: o boudoir, onde mulheres se retocavam; o fumoir, onde cavalheiros relaxavam. Ora, a bares e restaurantes vai quem quer. Comida por quilo e fast-food são outra coisa.

A solução é simples, apesar dos radicais antitabagistas: que haja bares para fumantes e bares para não-fumantes. Cada um escolha o seu e, então, que os incomodados se retirem.

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