Barrado no baile

Pouco saio às ruas mas, quando o faço, entro quase em pânico para retornar correndo a meu canto. Sinto não mais ser parte das coisas: a poluição visual, sonora, ambiental, a violência, a insegurança, a incivilidade, o desrespeito. Para onde estão correndo as pessoas, atropelando-se? Buscam o quê? Aonde chegarão?

Familiares meus dizem que me tornei um misantropo. Não é verdade, mas estou perto de decidir-me pela misantropia, numa opção que me parece mais saudável do que a convivência social suicidamente desnecessária. Já estabeleci critérios: coexistir, coexisto com todos, bons e maus, bandidos e virtuosos. É preciso fazê-lo. No entanto, conviver, convivo com os que seleciono, com os que amo, com quem escolho também coabitar. O que alguém com um mínimo de lucidez haveria de querer fazer entre a turba violenta, enlouquecida, desregrada?

Na verdade, somos, os de minha geração, não apenas parte de um outro tempo, mas de um outro mundo. Seria tolice dizer que foi mundo melhor, pois há conquistas fantásticas nesses nossos tempos admiráveis, ainda que egoísticos, individualistas. Mas era um mundo mais cordial, mais solidário, mais generoso. Havia o que hoje falta: civilidade. E regras. E havia sonhos mais amplos e universais, tão diferentes destes de consumismo enlouquecido, de acúmulo de bens e haveres muitas vezes sem qualquer sentido. Por que mesmo alguém precisa adquirir um automóvel no valor de 1 milhão de reais? Ora, dirão alguns, é dinheiro dele, que faça o que bem entender. Não é assim. Há uma dimensão social sem a qual transformaremos a vida numa luta sem fim de individualismos e de sectarismos.

Quase não entendo mais nada. Veja, esse feriado, o Dia de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra. E se, de repente, algum maluco resolveu pedir que se institua o Dia da Consciência Caucasiana e, um outro, o Dia da Consciência Amarela? Zumbi, personagem discutido e polêmico, deveria ser olhado, também, como homem sem preconceitos raciais e sociais, pois casado com Dona Maria, mulher branca, filha de fazendeiros. Consciência negra, o que é isso? Não entendo, não dá para entender, mesmo porque a definição de consciência é um dos mais agudos e angustiantes problemas filosóficos. Esse feriado me cheira a uma forma nova de exclusão. Sinto-me barrado desse baile.

E as palhaçadas no Congresso Nacional, em especial no Senado? Parece que foi abolida a noção de decoro parlamentar, pois, se ainda estivesse em vigor, esse senador Arthur Virgílio deveria ter seu diploma de senador cassado imediatamente. Como já deveriam ter feito com Eduardo Suplicy. Parece haver uma disputa em torno de qual a mais grotesca palhaçada. Arthur Virgílio apresentou uma moção para o grupo Cacique Cobra Coral – que jura ter poder sobre fenômenos atmosféricos – para explicar, ao Senado, as causas do recente apagão em Itaipu, um acidente que se transformou em outra palhaçada política. Brasília não é nem mais a Ilha Fantasia. Transforma-se, na praça dos Poderes, em circo completo. Se, pelo menos, tivesse o brilhantismo do Cirque Du Soleil, mas parece circo mambembe.

É, pois, um baile estranho esse, o dos nossos tempos. Sinto-me barrado. E suspiro aliviado. Bom dia.

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